Memória – Parte II

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Dando seguimento à Parte I, em que falei do caso do paciente H. M., bem como da distinção entre memória implícita e memória explícita, irei agora começar por falar um pouco mais do hipocampo, para de seguida explanar melhor a memória explícita, justificando a divisão em semântica e episódica, mas também completando sobre o porquê de ambas pertencerem à mesma categoria de memória.

Como foi dito na Parte I, pacientes como o H.M. permanecem com uma boa memória de curto prazo, sendo a amnésia apenas considerável na transformação dessas memórias de curto prazo em longo prazo. Por outras palavras, o paciente, cujo hipocampo lhe foi removido, é capaz de se lembrar de eventos que ocorreram nos últimos minutos, mas não daqueles que se passaram há umas horas. Este facto sugere que o hipocampo está envolvido nessa transformação, é como que uma parte da “linha de comboio” que liga a memória de curto prazo à de longo prazo. Sem este pedaço de linha, a viagem é impossível, pelo que o indivíduo não é capaz de reter memórias por mais que alguns minutos, visto que a capacidade de armazenamento da memória de curto prazo é curta e como não pára de aparecer algo novo para memorizar, esta continua a enviar as novas memórias em “vagões” que nunca chegam ao destino. Relembremos, porém, que a memória implícita (relacionada com habilidades motoras e perceptuais) do H. M. não foi afectada com a operação, o que significa que esse tipo de memória usa uma “linha de comboio” diferente, ou seja, não usa o hipocampo.

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O hipocampo é a área colorida na imagem. É uma das primeiras zonas a ser afectada pela doença de Alzheimer. 

O leitor poder-se-á estar a questionar sobre qual é o fim da linha, já que o hipocampo é apenas uma estação intermédia. Na verdade, a memória explícita de longo prazo é armazenada nas áreas de associação do córtex (as quais estão também envolvidas no processamento de informação sensorial). Naturalmente, lesões que afectem estas áreas do córtex poderão conduzir à perda de memórias explícitas obtidas antes da lesão. O leitor poderá ainda perguntar quanto tempo ficam as memórias paradas na “estação” hipocampo (e áreas adjacentes) antes de seguirem para o córtex. O período é variável, podendo ir de dias a semanas. Considera-se que o hipocampo serve para facilitar de algum modo o armazenamento de longo prazo a ocorrer no córtex.

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Nesta imagem podem ver onde se situam os córtices de associação. Notar que a designação de córtex corresponde a toda a “camada” de tecido neuronal exterior. O hipocampo, por exemplo, como podem ver na imagem anterior, não faz parte do córtex, pois está numa zona mais interior do cérebro. 

Como referido, existem dois tipos de memória explícita: memória semântica (conhecimento objectivo dos livros) e memória episódica (corresponde a eventos e experiências pessoais). O conhecimento semântico constrói-se através de associações. Pensa-se que a nossa “eficiência cognitiva” (a aptidão de lembrar e usar o conhecimento adquirido) dependa de quão bem está a informação organizada através destas associações no nosso cérebro. De facto, a memória semântica está repartida por vários locais anatomicamente distintos no córtex. Relembrar um conceito implica o invocar de várias memórias diferentes, cada uma associada a um diferente aspecto desse conceito. Ao recordarmos o aspecto de um elefante, estamos na verdade a recordar vários aspectos distintos que constituem esse elefante: a cor, o tamanho, o número de pernas, etc.. Cada um destes aspectos está memorizado num sítio diferente no nosso cérebro, ao invés de termos a representação do próprio elefante “inteiro” apenas numa região do cérebro. Assim, lesões em locais específicos do córtex podem conduzir a perdas específicas de informação e, consequentemente, a uma fragmentação do conhecimento. Por exemplo, uma lesão no lobo parietal posterior [1] do córtex resulta numa agnosia visual de associação [2]: o indivíduo é incapaz de nomear um objecto que lhe seja apresentado, ainda que o seja capaz de desenhar; em contraste, uma lesão no lobo occipital pode resultar numa agnosia visual de não percepção, em que o indivíduo é capaz de nomear um objecto, contudo é incapaz de o desenhar!

[1] A designação “posterior” significa que é mais do lado de trás, enquanto que “anterior” significa do lado da frente (ou nessa direcção). (Para concretizar, o nariz está na parte anterior da cabeça, visto estar do lado da frente.)

[2] O nome “agnosia” serve para identificar várias perdas percepcionais diferentes. Existem agnosias extremamente específicas, como podem constatar da leitura do livro “O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu” de Oliver Sacks, onde o neurólogo conta vários casos diferentes, em particular o de um homem que ao sair do seu consultório agarrou na cabeça da esposa, a pensar que era um chapéu. Este homem tinha perdido a capacidade de reconhecer faces humanas.

Assim, quando uma pessoa vê um objecto e o reconhece (o que significa que está a aceder à memória de longo prazo), diferentes áreas do cérebro ficam activas, cada uma dedicada a diferentes propriedades intrínsecas do objecto. Dos exemplos acima, fica claro que o conhecimento verbal e visual estão localizados em zonas do córtex diferentes. (No caso do visual, distingue-se ainda que as faces são memorizadas numa região, e objectos inanimados numa outra diferente.)

No caso da memória explícita dedicada às nossas vivências, a memória episódica, esta está localizada no córtex pré-frontal (na parte anterior do lobo frontal, ver nota [1] e imagem acima). Pacientes com lesões nesta área têm tendência a não se lembrar de como obtiveram a informação (visto que o como está relacionado com um acontecimento pessoal). Este tipo de défice é chamado de amnésia da fonte (source amnesia).

A memória episódica e semântica são semelhantes em três aspectos: 1) não estão localizadas numa só região bem definida do córtex; 2) um dado conhecimento está representado em múltiplas regiões, sendo que cada um desses “detalhes” pode ser acedido independentemente (usando o exemplo de cima, recordar a cor cinzenta não implica que nos lembremos imediatamente do elefante); 3) parecem usar os mesmos processos gerais de funcionamento (codificação da informação, consolidação (que ocorre no hipocampo), armazenamento e mecanismo de “recuperação”, para relembrar o memorizado). É nesse mecanismo de recuperação que se faz a unificação da informação dispersa, para criar pensamentos coerentes e completos. Como é evidente da nossa experiência diária, este processo é facilitado se o indivíduo estiver na presença de pistas relacionadas com aquilo que procura recordar, em parte porque essas pistas fazem na verdade parte dos “fragmentos” dispersos da memória no cérebro.

O que também podem deduzir da vossa experiência pessoal é que deve haver um tipo de memória especial de curto prazo relacionado com esse mecanismo de recuperação, isto porque, quando nos recordamos de algo, essa recordação mantém-se activa no nosso cérebro apenas enquanto a estamos a “usar”. De um momento para o outro é possível que nos esqueçamos do que estávamos a pensar há uns momentos atrás, sem que isso implique que as memórias relacionadas com esse pensamento se tenham perdido. Assim existe efectivamente um memória de curto prazo para lidar com as memórias recordadas (de longo prazo). Esta memória é chamada de memória de trabalho (working memory). Acredita-se que esta memória tenha três sistemas:

  1. Sistema de controlo de atenção (executivo central), localizado no córtex pré-frontal. Este é o sistema que nos permite focar a nossa atenção e percepção num dado evento. Controla o fluxo de informação para os outros dois sistemas.
  2. Ciclo fonológico (linguagem), que nos permite, por exemplo, numa conversa planear aquilo que vamos dizer a seguir. Ao repetirmos um número de telefone mentalmente antes de o digitarmos, estamos também a usar este sistema.
  3. Armazenamento visual-espacial, que representa as propriedades visuais de um objecto, bem como a sua localização espacial.

(Na verdade, este é apenas um dos modelos possíveis, havendo outras hipóteses ainda em discussão.) Note-se que esta memória de trabalho pode criar novas “ideias”, as quais podem ser guardadas como novas memórias de longo prazo (ou alternativamente podem ser simplesmente esquecidas).

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“Nota para o próprio: Estes lembretes constantes estão a começar a ser irritantes.”

Na parte III irei voltar-me mais para a memória implícita (e os estudos de Ivan Pavlov), para que depois possa finalmente concluir com algumas observações gerais sobre a memória.

Bibliografia: Segui principalmente o livro “Principles of Neural Science” de Eric Kandel (2000), capítulo 62.

Marinho Lopes

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3 thoughts on “Memória – Parte II

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