Memória – Parte III

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Na Parte I introduzi conceitos gerais sobre a memória, dando ênfase ao caso emblemático do paciente H.M.; na Parte II discuti em maior detalhe a memória explícita; e, finalmente, nesta Parte III vou debruçar-me sobre a memória implícita.

Como referido na Parte I, a memória implícita não depende de esforço consciente para ser recordada: um tenista, por exemplo, não precisa de durante o jogo recordar-se como jogou nos treinos, para que a prática adquirida nos treinos se espelhe na sua forma de jogar. Essa “prática adquirida” é uma memória implícita. Este tipo de memória não pode ser expresso em palavras, sendo a sua existência antes verificável através da performance do indivíduo numa tarefa motora e/ ou perceptual.

Diferentes tipos de memória implícita são memorizados em diferentes partes do cérebro. Reflexos relacionados com reacções a situações que suscitem medo, por exemplo, estão associados a memórias “gravadas” na amígdala (ver penúltima figura da Parte I).

A memória implícita tem sido estudada numa variedade de sistemas perceptuais e reflexivos em seres vertebrados e invertebrados. Estes últimos são particularmente importantes, pois o seu sistema neuronal é tipicamente muito mais simples e fácil de analisar experimentalmente.

A memória implícita é dividida em duas classes principais: não associativa e associativa. No caso da não associativa, o indivíduo aprende algo sobre as propriedades de um dado estímulo, enquanto que na associativa, o sujeito recebe dois estímulos (ou mais) e aprende uma relação entre eles (ou alternativamente, o sujeito memoriza a relação entre um dado comportamento e um estímulo).

Um tipo de aprendizagem não associativa é chamada de habituação, que todos nós já experimentámos em inúmeras situações. Quando ouvimos um ruído prolongado, por exemplo, ao princípio pode-nos incomodar, mas eventualmente acabamos por nos “habituar” a ele. Aprender a desprezar certos estímulos é uma capacidade extremamente importante, pois sem ela seríamos incapazes de nos “focar” em algo específico, o que resultaria numa incapacidade total de fazer qualquer tipo de tarefa. Os nossos sentidos estão constantemente a “bombardear” o cérebro com informação, muita dela redundante, pelo que é imperativo fazer uma selecção dinâmica desta. Naturalmente, muita da selecção é feita pelos próprios sistemas sensoriais, sem necessidade de recorrer à memória, pois os mesmos foram já “desenhados” (pela evolução) a reconhecerem os contrastes e descontinuidades e não aquilo que permanece constante no mundo que nos rodeia. É claro que há excepções e para essas existe um outro tipo de memória não associativa: sensitização, que é basicamente a capacidade que temos de nos tornarmos mais sensíveis depois de “alertados” por um dado estímulo. Neste caso, o estímulo tende a ser intenso ou nocivo. Por exemplo, antes de uma corrida é frequente ver-se os corredores a esbofetearem-se a si próprios, com a intenção de que a dor faça aumentar os níveis de atenção, de modo a estarem preparados a reagir mais depressa no momento em que for dado o sinal de partida. Como podem imaginar, a sensitização pode ser usada de modo a “apagar” memórias relacionadas com “habituação”, que conscientemente queremos perder, para optimizarmos a nossa performance numa dada tarefa.

Existem outros tipos de memória não associativa mais complexos. Um exemplo é a aprendizagem por imitação, que é fundamental para, por exemplo, aprender a falar.

A memória implícita associativa pode também ser dividida em dois tipos fundamentais: condicionamento clássico e condicionamento operante. O primeiro está relacionado com o aprender da relação entre dois estímulos, enquanto que o segundo concerne a relação entre um estímulo e um comportamento do animal.

O condicionamento clássico é também conhecido por condicionamento pavloviano, porque foi primeiramente estudado pelo fisiólogo russo Ivan Pavlov na década de 1920. Pavlov andava a estudar a salivação dos cães, quando reparou em algo curioso: os cães eram capazes de “adivinhar” que vinha lá comida. Por exemplo, quando ouviam os passos do Pavlov, os cães já sabiam que a seguir lhes ia ser oferecida comida, por isso começavam a salivar ainda sem terem visto o alimento. Pavlov supôs então que os cães tinham memorizado uma associação entre dois eventos distintos (mas relacionados). Seguidamente, Pavlov passou a testar esta ideia, usando um estímulo não relacionado. A essência do condicionamento clássico passa portanto pela existência de um estímulo condicionado e um estímulo incondicionado, em que o primeiro serve de “pista” para o segundo, embora não esteja necessariamente relacionado com o comportamento que irá suscitar. O segundo estímulo é também chamado de “reforço”, sendo em laboratório tipicamente “representado” por alimentos ou choques eléctricos. Chama-se “incondicionado” porque dá origem a uma resposta inata do animal ao estímulo. (A salivação dos cães perante a comida é inata, por exemplo.)

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Ivan Pavlov (1849-1936). Fisiólogo russo que recebeu o Prémio Nobel da Medicina em 1904 pelos estudos que efectuou sobre os processos digestivos dos animais (os estudos sobre o condicionamento clássico só ocorreram mais tarde).

Se o estímulo condicionado for apresentado muitas vezes seguido do estímulo incondicionado (o espaço temporal entre os dois necessita de ser “curto”, embora possa ser muito distinto entre espécies de animais diferentes), o animal irá eventualmente fazer a associação entre os dois estímulos e compreender que existe uma relação entre os dois. Assim, o estímulo condicionado torna-se numa forma de antecipação ao estímulo incondicionado. (No caso dos humanos, este tipo de memória implícita “mistura-se” com uma memória explícita, o que permite a categorização da relação em causa de modo muito mais rápido do que outros animais são capazes.)

Este tipo de memória é também possível de ser “apagada” (modificada): basta que o estímulo condicionado seja muitas vezes apresentado sem que se siga o estímulo incondicionado. No caso do cão, se ele ouvir muitas vezes os passos do Pavlov sem que de seguida lhe seja dada ração, ele irá eventualmente deixar de salivar. (No entanto, se mais tarde se voltar a dar a ração após o som dos passos, de modo a criar novamente a memória, esta aparecerá mais rapidamente que da primeira vez, mostrando que na verdade o cão não tinha esquecido – tinha antes aprendido algo novo.) Este fenómeno de extinção de memória é muito importante, porque os habitats são dinâmicos. Se um animal aprende a relacionar um dado estímulo com a obtenção de alimento, isso torna-se importante para a sua sobrevivência, mas de igual modo, se essa relação se extinguir, é importante que o animal saiba desistir, pois de outro modo a sua sobrevivência voltaria a ficar em risco, por ficar à espera de alimento que nunca viria a adquirir.

Vídeo que sumaria as ideias que explanei acima.

A faculdade de criar memórias associativas é comum a muitos animais, podendo-se colocar a questão sobre o porquê de o mecanismo ser aparentemente semelhante entre animais muito simples (como a lesma) e outros muito complexos (como o humano). A resposta empírica é que todos os animais se sujeitam a desafios de adaptação e sobrevivência semelhantes. Todos procuram alimento e todos procuram evitar predadores (caso os tenham). O objectivo de sobreviver é comum a tudo o que é vivo. Compreender e memorizar informação sobre o meio que nos rodeia, sabendo distinguir correlações de eventos aleatórios, constitui sempre uma vantagem biológica. Finalmente, quando uma solução bem sucedida surge na evolução, ela continua a ser “seleccionada”, sendo por isso comum a muitas espécies diferentes.

Como disse em cima, além do condicionamento clássico existe também o condicionamento operante. Este foi inicialmente estudado pelo psicólogo Burrhus Skinner. Para analisar este tipo de aprendizagem usa-se tipicamente pombos ou ratos esfomeados, que recebem alimento se fizerem uma dada tarefa. O comportamento é primeiramente aleatório, até que o animal acaba por compreender que existe uma relação entre aquilo que fez e a subsequente recompensa. Assim, sempre que estiver com fome, o pombo irá, por exemplo, pressionar um botão. Naturalmente, se em vez de recompensa, se usar um estímulo negativo (a aplicação de um choque eléctrico, por exemplo), o animal aprende a evitar o comportamento que teve antes de sofrer esse estímulo. Os psicólogos chamam a isto a Lei do Efeito, a qual crêem que preside na maioria dos comportamentos “voluntários”.

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Burrhus Skinner (1904-1990).  Psicólogo americano, autor do célebre livro Walden II.

Tal como no condicionamento clássico, no condicionamento operante também é importante que o tempo entre o comportamento e a recompensa seja suficientemente curto (o tempo óptimo entre os dois depende da associação em causa, e também varia entre espécies). Por outro lado, o tempo que demora o animal a aprender a relação depende da recompensa que lhe é dada. Associações relacionadas com recompensas extremamente positivas ou negativas tendem a ser compreendidas mais depressa. Além disso, existem ainda relações inatas entre estímulos e consequências que os animais já conhecem à piori. Por exemplo, um animal irá muito mais facilmente associar o alimento que comeu com a dor de estômago que teve posteriormente, do que fazer a associação entre essa mesma dor e uma paisagem que observou. (Para nós humanos é claro que isto não só é inato, como faz parte do nosso senso comum, uma vez que sabemos minimamente como funciona o nosso corpo.) Mais uma vez, assume-se que foi a pressão evolucionária que predispôs os cérebros de diferentes espécies a associar certos estímulos e/ ou comportamentos muito mais rapidamente que outros.

A memória implícita, tal como a memória explícita, também pode ser associada a regiões específicas do cérebro. Para descobrir essas regiões os métodos típicos são o estudo de lesões cerebrais, bem como a análise da actividade neuronal no cérebro. É possível identificar a amígdala, como disse em cima, bem como o cerebelo (ver a terceira figura da Parte I), o corpo estriado (região interior do cérebro, “perto” da amígdala), entre outros, estando cada um envolvido em diferentes tipos de memória implícita.

Como disse em cima, nos humanos a criação de uma memória tem muitas vezes elementos de memória implícita e explícita (e de vários tipos dentro destes géneros), o que explica que uma lesão localizada dificilmente elimine uma memória específica. Além disso, uma memória explícita pode aparentemente transformar-se numa memória implícita: quando aprendemos a executar uma dada tarefa motora, ao princípio precisamos de recordar conscientemente cada etapa da tarefa, porém, repetindo a tarefa muitas vezes acabamos eventualmente por a executar inconscientemente. Aprender a conduzir um carro é um exemplo.

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“Repara no que consigo que o Pavlov faça. Assim que começar a salivar, ele irá sorrir e irá começar a escrever no seu pequeno caderno.”

Bibliografia: Segui principalmente o livro “Principles of Neural Science” de Eric Kandel (2000), capítulo 62.

Marinho Lopes

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2 thoughts on “Memória – Parte III

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