O seu cão não cheira melhor que você!

dog suit

É comum considerar-se que os cães têm excelente olfacto, estando implícito (ou explícito) que o nosso, o dos humanos, não é tão bom. Aliás, tendo em conta que as nossas vidas dependem principalmente do que vemos e ouvimos, o dom de cheirar é relegado para segundo plano e assumimos que o nosso sistema de identificação de cheiros não deve ser grande coisa. Porque é que haveria de ser?! Coloca-se também a questão: será que o nosso nariz serve apenas para enfeitar a cara (ou distorcê-la)?

O mito do nosso olfacto não ser dos melhores remonta ao século XIX. O médico e anatomista francês Paul Broca (1824-1880) classificou os humanos como sendo animais que não cheiram (ou cheiram pouco). A sua conclusão não se baseou em qualquer teste sobre as nossas capacidades olfactivas, mas antes na dedução de que o lobo frontal humano seria maior que o de outras espécies à custa de uma menor porção de tecido cerebral dedicado ao processamento de cheiros, o bulbo olfactório.

Recordo que Paul Broca foi um importante neuroanatomista que estudou a função de várias áreas do cérebro. Como referi na História do Cérebro, foi ele que afirmou que “nós falamos com o hemisfério esquerdo”. Caso não se lembre do que são os hemisférios e lobos cerebrais,  recomendo que leia o artigo sobre a Memória.

Paul Broca notou também que o bulbo olfactório humano ocupa uma porção significativamente menor do cérebro em comparação com os bulbos olfactórios de outros mamíferos.

Este argumento conduziu Sigmund Freud (1856-1939) a propor que esta aparente atrofia cerebral humana era a causa da nossa susceptibilidade a padecer de doenças mentais. (Note-se que na altura era difícil diagnosticar doenças mentais noutros animais, pelo que era natural assumir que as doenças mentais só nos afectavam a nós. Hoje as evidências apontam antes para a hipótese contrária: outros animais também podem sofrer de doenças mentais. Não obstante, o diagnóstico psiquiátrico de animais permanece impossível (e o de humanos difícil).)

O mito permanece vivo ainda hoje em dia, com imensos psicólogos, psiquiatras, antropólogos e biólogos a acreditarem que o Homem não cheira bem.

bad smell

Sim, existem diferenças entre o sistema olfactivo humano e o de outros mamíferos, contudo em geral são semelhantes, quer em mecanismos de funcionamento, quer em capacidades. É verdade que por exemplo os ratos têm um bulbo olfactório maior que o dos humanos (isto é, relativamente ao tamanho do seu cérebro), mas o número de neurónios é semelhante (pois em termos absolutos o bulbo humano é maior que o dos ratos). Isto indica que, ao contrário do que Paul Broca propôs, o facto de outras partes do cérebro humano serem muito maiores que as correspondentes noutros animais, tal não foi alcançado à custa do bulbo olfactório (a grande diferença é antes termos um cérebro relativamente grande). (Permitam-me um à parte sobre os elefantes: eles têm mais neurónios que nós, mas nós temos três vezes mais neurónios que eles no córtex, a área cerebral que é fundamental para a cognição humana.)

De facto, se compararmos o número de neurónios no bulbo olfactório de ratos, coelhos, cães, macacos, pessoas, etc., encontramos um número similar. Este facto pode parecer estranho dado que costuma verificar-se uma correlação entre o tamanho do cérebro (e seus “componentes”) e o tamanho do animal: organismos maiores exigem um cérebro maior. Porquê? À partida porque um animal com um corpo maior tem uma maior superfície sensorial (não apenas externa). No entanto, esta lógica não se aplica ao cheiro, o que pode explicar o porquê de animais maiores não apresentarem um bulbo olfactório maior.

Mas uma coisa é o tecido cerebral, outra é a performance com que usamos o sentido do cheiro. Em laboratório já se mostrou que depende do odor em causa: há odores que os ratos e/ou os cães, por exemplo, detectam melhor que nós, mas há outros odores que os humanos reconhecem melhor. Tal como os cães, os humanos também conseguem seguir o rasto de cheiros, contando que sejam cheiros aos quais o nosso sistema olfactivo seja sensível.

Em termos absolutos a nossa capacidade de reconhecer cheiros é sem dúvida impressionante: estima-se que conseguimos detectar mais de um trilião de cheiros diferentes! (Cuidado com os livros antigos que apresentam estimativas na ordem dos dez mil.)

Além disto, o cheiro tem um papel muito mais importante na nossa vida do que aquilo que supomos. Muitos comportamentos humanos, por norma relacionados com emoções, são afectados pelo cheiro. Existe também uma comunicação inconsciente mediada pelo olfacto: níveis de stress e ansiedade, bem como informação de cariz sexual são transmitidos através do cheiro. (É claro que nesta história estamos também a falar de feromonas, isto é, de substâncias químicas secretadas pelo corpo “emissor” da mensagem.)

Hoje em dia estuda-se de que forma é que o olfacto condiciona ou influencia interacções sociais. Por exemplo, será que é possível propagar uma dada emoção numa população recorrendo apenas a cheiros, sem uso de comunicação verbal?

Freud gostaria de saber que também se investiga a relação entre o olfacto e doenças neurodegenerativas: crê-se que perdas de olfacto podem ser um indicador precode da doença de Alzheimer, ou Parkinson.

Assim, a visão científica actual é que o nosso sistema olfactivo é excelente! Alegre-se, por isso, caro leitor: não há razões para se sentir inferior ao seu cão, pelo menos no que diz respeito à capacidade de cheirar.

 

Se quiserem ler mais sobre o assunto, recomendo este artigo:
McGann, John P. “Poor human olfaction is a 19th-century myth.” Science 356.6338 (2017): eaam7263.

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“Muitos adultos começam a perder o olfacto a partir dos 60 anos.”
“Dizes isso como se fosse uma coisa má!”
Acrescento uma curiosidade: em média o bulbo olfactório das mulheres tem mais neurónios que o dos homens. Deixo as ilações especulativas para vós.

 

Marinho Lopes

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