Ciência, Ética e Religião – parte I

science vs religion

Neste artigo vou discutir um texto que li recentemente de um bispo grego, Hierotheos Vlachos, sobre a visão da Igreja Ortodoxa em questões de bioética [1]. No meu entender, o artigo tem muitos mal-entendidos que não dizem respeito apenas à Igreja Ortodoxa, pelo que resolvi fazer um apanhado deles e comentá-los aqui. Este será um artigo de carácter opinativo sobre filosofia da ciência e a sua relação com a ética e a religião. Irei citar a azul fragmentos do texto supramencionado de forma a comentá-los um a um.

 

“Não existe qualquer conflito entre a teologia e a ciência, pois elas têm propósitos e papéis diferentes.” 

Esta afirmação é repetida várias vezes ao longo do artigo. Também já a encontrei muitas vezes noutros círculos religiosos (nomeadamente no católico, protestante e islâmico). A razão para o declarar é evidente: a ciência tem actualmente uma “autoridade” inquestionável dada a tecnologia que tem oferecido à humanidade. Por isso, qualquer pessoa com um pouco de bom senso não irá querer entrar em conflito com a ciência. Contudo, o conflito entre a teologia e a ciência existe. Se não existisse, o artigo em questão [1] não existiria. Os “propósitos e papéis” são em geral diferentes, mas existe sobreposição: tudo aquilo que a teologia “decreta” sobre o nosso universo é passível de ser escrutinado pela ciência, a qual não irá necessariamente concordar com os dogmas teológicos.

Também é deixado implícito em vários momentos do texto que não existe um conflito entre a ciência e a ética, quando é claro que existe. Por exemplo, poderíamos considerar escolher aleatoriamente uma amostra de 1000 pessoas para sacrificar em experiências científicas. Para a ciência isto seria excelente, pois de certo que nos permitiria fazer avanços importantes em biologia e medicina. Aliás, com isso poderíamos eventualmente vir a salvar milhões de pessoas no futuro. É ético fazê-lo? Não. Existe um conflito? Claro! É por existir um conflito que a actividade dos cientistas é regulamentada de acordo com normas éticas socialmente aceites.

 

“Não são os genes, mas o nous (intelecto) e livre arbítrio que dão origem a todas as diferenças entre seres humanos e o resto da criação, e entre cada ser humano.”

O intelecto humano e a sua capacidade de decidir são aptidões do cérebro humano, o qual é o resultado da receita genética humana. Eis um exemplo do conflito entre a teologia e a ciência. A diferença entre animais e humanos e entre cada humano é uma questão científica que pode e é investigada, sem necessidade de recorrer a dogmas religiosos. Sabemos que pelo menos a variabilidade genética existe e que explica em parte as diferenças observadas. Quanto ao nous e ao livre arbítrio, são conceitos mal definidos e que por isso não permitem ser estudados de forma cuidadosa. Afirmar que eles são a base das diferenças é uma falsa explicação dada a obscuridade destes conceitos. Trata-se de redireccionar questões para outras questões de forma vaga e confusa, algo que é típico em teologia. Suponho que o problema seja fácil de reconhecer até por teólogos e pessoas religiosas quando estes tentam compreender a teologia de outras religiões que não a sua.

 

“A ciência espera no futuro curar várias doenças através de terapia genética, contudo não poderá vencer a morte de forma permanente através de meios humanos.”

Ninguém tem forma de saber quais são os limites da ciência. Neste caso, nem é preciso muita imaginação para supor que a ciência poderá de facto descobrir a imortalidade. Refira-se, por exemplo, o facto de já terem sido identificados genes responsáveis pelo envelhecimento [2]. Não seria de todo surpreendente que viesse a ser possível parar o envelhecimento e que se conseguisse curar todas as doenças (a morte seria ainda assim possível, mas não através de causas “naturais”).

O importante a reconhecer é que crenças religiosas não definem os limites daquilo que a ciência pode saber. Na verdade, o limite vai variando ao longo do tempo dependendo da nossa capacidade de definir questões e de encontrar meios de lhes dar resposta. Não obstante, podem existir limites lógicos e naturais (como nos mostram os Teoremas da Incompletude de Gödel e o Princípio da Incerteza de Heisenberg, respectivamente).

Faço ainda a salva-guarda de que ser possível não implica que o devamos fazer. Ou seja, mesmo que não existam limites de carácter científico, pode ser oportuno definir limites de carácter ético.

 

“Até quando as pessoas crescem num mesmo meio, elas desenvolvem personalidades diferentes, como acontece com gémeos idênticos.”

As evidências mostram-nos que, na verdade, parte dos nossos comportamentos humanos, que julgamos serem consequência das nossas vivências e decisões, são afectados de forma significativa pela genética. O sermos semelhantes a familiares em determinados comportamentos não se deve apenas ao facto de provavelmente sermos influenciados por eles através da interacção social que temos com eles: a genética também tem um papel, ainda que para já seja difícil ter certezas do quão importante é esse papel em diferentes comportamentos.

Acrescento que uma forma de estudar o papel da genética em comportamentos humanos é precisamente usando gémeos idênticos e fraternos. Note-se que os gémeos idênticos tem ADN igual, enquanto que os fraternos têm ADN diferente. Por outro lado, tanto gémeos idênticos como gémeos fraternos crescem sujeitos a experiências semelhantes. Isto significa, portanto, que se um dado comportamento for muito mais vezes partilhado entre gémeos idênticos do que entre gémeos fraternos, tal poderá implicar que o comportamento tem uma componente genética. Através deste tipo de estudos verificou-se, por exemplo, que gémeos idênticos têm maior tendência a partilhar hábitos de alcoolismo do que gémeos fraternos, o que indicia uma componente genética na propensão a ser-se alcoólico [3]. (O mesmo tipo de estudo pode ser feito para verificar se certas doenças têm ou não base genética. Por exemplo, é muito mais comum encontrar gémeos idênticos ambos com autismo do que encontrar gémeos fraternos que partilhem a doença, o que significa que o autismo pode ser pelo menos por vezes influenciado pela genética [3].)

 

“Entre os cristãos, através dos Mistérios sagrados, existe ADN espiritual, o qual cancela uma boa parte dos efeitos coercivos do ADN biológico.”

ADN biológico sei o que é, ADN espiritual não. Repudio a prática de profanação de conceitos científicos, a qual me parece desrespeitosa para com a ciência e que conduz a desinformação. Esta é de facto uma prática recorrente em meios pseudo-científicos, onde se tenta imiscuir ciência nas falácias de forma a tornar os disparates aparentemente mais plausíveis. Isto é, é dada a falsa ilusão de que o novo conceito se baseia na ciência. O texto que estou a comentar não sofre muito deste problema, mas não pude deixar de comentar esta excepção.

 

“O propósito profundo da Igreja de hoje é ajudar as pessoas a resolver as suas questões existenciais sobre a vida e a morte. Isto é algo que nem a ciência, nem a filosofia, nem o progresso tecnológico podem oferecer.”

Errado. Primeiro, existem imensas filosofias que oferecem respostas para questões existenciais. Parece-me desrespeitoso desprezá-las. Segundo, a ciência poderá ser incapaz de responder a certas questões para já, mas é impossível prever do que será capaz no futuro. Mais ainda: quem tiver um espírito científico estará disposto a aceitar que muitas questões não têm resposta conhecida. Podemos reconhecer com humildade a nossa ignorância e viver com ela.

 

atheists

” – Pessoalmente, eu acho os ateus tão irritantes quanto os cristão fundamentalistas.”
” – Bom, o importante é que encontraste algo para te sentires superior a ambos.”

 

[1] http://www.parembasis.gr/index.php/articles-in-english/5523-2018-11-24
[2] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3001305/
[3] Eric Kandel, “Principles of Neural Science”, Chapter 3: Genes and Behavior.

 

Marinho Lopes

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