Quando até os especialistas dizem disparates…

facepalm

Michio Kaku apareceu no mês passado nas notícias a defender que neste momento as evidências indicam que os OVNIs (ou UFOs em inglês) existem e deu a entender que a sua origem deve ser extra-terrestre:

Qual o problema? Por definição, um Objecto Voador Não Identificado (OVNI) é algo que não sabemos o que é (ou pelo menos não é do conhecimento público). Isto não implica que seja de origem extra-terrestre, claro.

Michio Kaku não está sozinho na “elite” dos que já proferiram disparates. Stephen Hawking, por exemplo, afirmou no seu último livro que não há possibilidades de Deus existir. Como Deus não é um conceito científico passível de verificação experimental, é claro que a afirmação é absurda. O argumento de Hawking é que, como não existia tempo antes do Big Bang, Deus não poderia existir antes da criação do universo. Um argumento caricato porque assume que a existência pressupõe tempo e que isto se aplica tanto ao universo como ao seu suposto criador. Hawking também proferiu outros comentários no mínimo questionáveis, como por exemplo a profecia de que a Inteligência Artificial pode aniquilar a humanidade. É possível que possa, mas neste momento a afirmação parece mais um alarmismo inoportuno, do que um aviso necessário.

Até mesmo entre Prémios Nobel é possível ouvir muito disparate. Por exemplo, Ivar Giaever, Prémio Nobel da Física em 1973, afirmou que não havia aquecimento global, quando na verdade há múltiplas provas e consenso científico sobre o aquecimento global. Luc Montagnier, Prémio Nobel da Medicina em 2008, não só apoiou múltiplas pseudociências, como a homeopatia, como até contribuiu para a histeria em torno das vacinas. Aliás, até nomes incontornáveis da História da Ciência do século XX, como Wolfgang Pauli (Nobel da Física em 1945) e Linus Pauling (Nobel da Química em 1954) defenderam diversas idiotices e até mesmo pseudociências. Este “fenómeno” é apelidado de doença Nobel, dada a sua prevalência entre os premiados.

Não vou, porém, fazer aqui um levantamento de todos os disparates que já foram ditos por gente que tinha o dever de ser imune a este tipo de erros, ou pelo menos a uma parte deles. É importante notar que os disparates de cima podem ser essencialmente divididos em dois tipos diferentes: ou são de carácter opinativo sobre assuntos que os questionados não dominam, ou são de carácter pseudocientífico. Por exemplo, Ivar Giaever deu a sua opinião desinformada sobre as alterações climáticas. É grave estar tão mal informado, mas a verdade é que a área de estudos de Giaever era uma outra completamente diferente. Se por um lado o próprio tem culpa em exprimir uma opinião desinformada sobre um assunto que não domina, por outro é comum que a culpa seja em parte partilhada por quem faz a questão. Infelizmente, é comum ver-se divulgadores de ciência a serem questionados sobre todas as ciências não obstante a sua formação estar restringida a uma dada área. Não quero dizer que digam sempre disparates (muitas vezes estão bem preparados), mas a probabilidade destes emergirem é maior do que caso as questões fossem sempre personalizadas tendo em conta o conhecimento do divulgador e/ou cientista interpelado. Assim, quando o entrevistador faz a questão errada e o entrevistado responde na qualidade de indivíduo com opiniões e não na qualidade de divulgador especialista no assunto, cabe ao público ter o espírito crítico para questionar a informação recebida. Isto implica que todos nós quando lemos, ouvimos ou vemos uma entrevista, documentário, comentário, etc., temos que verificar credibilidade do “mensageiro” dada a “mensagem” em causa. E, claro, mesmo que o mensageiro seja versado na mensagem, tal não implica que a mensagem seja verdadeira.   É por isso importante não ser um “fã” crédulo de ninguém de tal forma que se acredite em tudo o que essa pessoa diz sem questionar.

O outro tipo de disparate, o da pseudociência, é mais grave. Um cientista e/ou divulgador, seja de que área for, deve (ou deveria) saber distinguir ciência de pseudociência. A diferença é que a ciência é conhecimento baseado em evidências experimentais reproduzíveis, enquanto que a pseudociência é um conjunto de alegações sem evidências que as comprovem, mas que simula fazer parte da ciência. A homeopatia é um dos exemplos mais conhecidos, mas há mais: todas as medicinas alternativas são pseudociência, pois são “alternativas” precisamente por não mostrarem provas válidas da sua eficácia. Todas as que eram válidas passaram a fazer parte da medicina convencional moderna. As pseudociências têm, à partida, um tempo de vida limitado: ou se bem que são encontradas provas que as comprovem e por isso são englobadas na ciência, ou acabam esquecidas. A Frenologia é um exemplo de uma pseudociência que morreu face à ausência de confirmação prática.

Deixo aqui uma pequena lista de pseudociências e de questões ou assuntos pseudocientíficos para consulta:

  • Astrologia (e todos os tipos de adivinhação)
  • Espiritismo (e afins)
  • Negar alterações climáticas
  • Homeopatia
  • Reiki
  • Osteopatia
  • Acupuntura
  • Naturopatia
  • Movimento anti-vacinas
  • Cura pela fé (medicina vibracional, cura psíquica, terapia enérgitica e afins)
  • Misticismo quântico (e afins)
  • Feng shui
  • Quiropraxia
  • Psicanálise
  • Frenologia
  • Criacionismo (e “design inteligente”)
  • Terra plana
  • Fiabilidade do polígrafo
  • Parapsicologia
  • Triângulo das Bermudas
  • A não ida à Lua
  • Experiências de quase morte
  • etc.

(Podem consultar esta lista que é um pouco mais completa.)

A mensagem deste artigo é pois um alerta: por vezes, nem nos especialistas podemos confiar, em particular se forem especialistas de assuntos diferentes daqueles sobre os quais se expressaram. Naquilo que dominam podemos ouvi-los com maior confiança, mas se possível devemos ainda assim procurar confirmações e refutações (e avaliar a credibilidade de cada uma delas).

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“Não sei nada sobre o assunto, mas terei todo o prazer em dar-lhe a minha opinião especializada.”

Marinho Lopes

7 thoughts on “Quando até os especialistas dizem disparates…

  1. Pingback: Índice de Artigos | Sophia of Nature

  2. Não é preciso ir muito atrás no tempo mas, antes do Dr. nascer, aqui há uns 40 anos, falar de exoplanetas era também um autêntico disparate, bem assim como o era falar acerca de teorias catastrofistas como sendo as responsáveis pelo desaparecimento dos dinossauros, ou dizer que a homossexualidade não era uma doença, etc., etc., etc. Considerar pseudociência a apresentação de dados científicos que mostrem que em 1969 aquilo que a NASA disse que fez com a Apollo XI e seguintes ser totalmente impossível já é exorbitar “um pouco” as suas capacidades apesar das suas licenciatura, mestrado, doutoramento e pós-doutoramento em modelos matemáticos para o estudo da epilepsia, tudo pós-Bolonha. Experimente ver esta troca de impressões http://www.astropt.org/2009/07/08/provas/ entre o Dr. Carlos Oliveira e o Sr. Rui Tavares acerca desta mesma problemática e diga-me quais foram os argumentos que o Carlos Oliveira, “perito no assunto”, apresentou para defender a “verdade científica” para além da má educação que mostrou na maior parte das suas respostas. Resta dizer que alguns posts do Rui Tavares desapareceram e que a ordem dos que ficaram, basta olhar para a sua data, foi alterada, se calhar, para dar a ideia de que o mesmo é um tontinho uma vez que punha as questões fora de tempo. Quanto ao assunto que o dr. aqui apresenta, resta-me dizer-lhe que a idade amadurece as pessoas e o Prof. Michio Kaku, logicamente sensível à dimensão imaginária tempo, deixou de ser um fundamentalista da actual religião científica e passou a ser sensível às dezenas e dezenas de milhares de testemunhos existentes. Peço desculpa por não dar a conhecer o meu nome e entrar na sua casa com o meu nickname de A Besta mas, tudo se deve às tais teorias da conspiração às quais não se deve dar muita importância.

    • Olá “A Besta”,

      Há 40 anos já se assumia que exoplanetas deveriam ser comuns, ainda que não houvesse provas “concretas” disso. Há muito mais tempo que isso, sim, poderia ser considerado um disparate. Quanto aos dinossauros, não sei bem qual foi o progresso das teorias sobre o seu fim – talvez tenha razão, não sei. No que toca à homossexualidade, sim, foi considerado uma doença. Hoje em dia não o é (ao contrário daquilo que deu a entender, suponho que por engano). Mas sim, o que você queria dizer é que no passado foi dito muito disparate, sendo que alguns deles veio-se a verificar que não eram disparates. Não obstante, e como já fiz notar em alguns artigos sobre Filosofia da Ciência presentes neste blogue, uma alegação precisa de provas para ser considerada viável. A alegação até pode ser verdadeira, mas se não tiver evidências que a suportem deve ser considerada disparate (pelo menos até que as evidências surjam). Muitas das alegações sem provas serão de facto falsas (como é natural que o sejam)! No caso da alegação do Michio Kaku sobre os extraterrestres, sem melhores provas que as que ele referiu (e que outros já referiram), deve ser considerada disparate. É claro que os extraterrestres até podem existir e até podem já ter feito uma visita à Terra, mas enquanto não houver boas provas disso faz mais sentido assumir que não (tal como por “default” consideramos que o Pai Natal e as fadas não existem).

      Quanto à Apollo XI, não percebi bem se você está a querer dizer que não aconteceu, ou que aconteceu. Aconteceu, não há dúvidas nenhumas disso. Há imensos sites a tentar desmentir, mas há também sites a mostrar como esses argumentos falham todos. É uma discussão que não tenho interesse ter aqui, pois pode ser encontrada em muitos outros sites. Colocando a Ciência e as evidências de parte, pode-se antes pensar de um ponto de vista político: se tivesse sido mentira, os Russos teriam de certo mostrado isso ao mundo. Era um segredo demasiado difícil de manter, em particular tendo em conta a espionagem durante a Guerra Fria.

      Quanto à discussão entre o Carlos Oliveira e o Rui Tavares, não fui ver, pois não respondo por outros.

      Todas as supostas evidências que suportam os extraterrestres são de muito fraca qualidade. Em particular, testemunhos de observações é algo não tem peso praticamente nenhum a nível científico. Eu posso afirmar que vi algo e estar a mentir. Ou posso ter alucinado. Ou posso ter visto outra coisa. Ou… As tais “boas” provas que referi não são intermitentes e não dependem do observador. Talvez um dia destes escreva um artigo sobre o que se consideram “boas” provas científicas, bem como aquilo que são “más” provas e porquê.

      Cumprimentos,
      Marinho

  3. Olá Marinho, muito bom dia
    Embora a mais antiga evidência da existência de um exoplaneta date de 1917, a qual foi o registo do espectro da estrela de van Maanen que foi captado no Observatório do Monte Wilson e que na altura foi interpretado como sendo o espectro de uma estrela do tipo F, continuo a afirmar, porque me lembro disso perfeitamente (vantagem da minha provecta idade), que até 1988/89, data das primeiras detecções científicas que levaram à descoberta de exoplanetas, falar da existência dos mesmos era uma autêntica heresia científica tal como é, actualmente, falar de OVNIS, embora se assuma que, desde a Idade da Pedra (em pinturas e escritos), a sua presença entre nós terá sido possível.
    Quanto à homossexualidade eu só disse que aqui há 40 anos atrás, quando a Organização Mundial de Saúde a considerava uma doença, dizer-se que a mesma não o era seria também um autêntico disparate e nada mais quis dar a entender quanto a este assunto.
    Sei também que não é só apanágio do antigamente o facto de se dizerem muitos disparates. Hoje em dia o disparate também anda por aí com muita frequência e até na boca dos representantes da actual religião científica (baseada na mainstream scientific opinion) mas, futuramente, de certeza, verificar-se-á aquilo que sempre se tem verificado ao longo dos tempos e que é que a maioria nunca tem razão, a não ser na política (democracia) e, mesmo assim, é só porque, dos conhecidos até à data, este sistema representa o mal menor para o governo dos povos politicamente organizados.
    Quando se pretende utilizar o método científico para o estudo de qualquer fenómeno, o teoricismo tem um papel importante no mesmo porque é graças a ele que se elaboram as diversas hipóteses que o tentam explicar. No entanto, só por si não chega porque torna-se necessário juntar evidências empíricas verificáveis que permitam testar e retestar na prática, usando a lógica e a razão, as tais hipóteses referenciadas o que, no fim, permite chegar à conclusão de qual é a hipótese que efectivamente explica, sem margem para dúvidas, o fenómeno em causa. Quando isso acontece, diz-se que surge uma teoria explicativa seja lá de que fenómeno for.
    Todo este percurso estaria correcto se, no fim do mesmo, não aparecesse um processo censório intitulado de peer review (revisão por pares). Como o próprio nome indica, este processo consiste em submeter todo o trabalho científico executado e escrito numa revista científica da especialidade, acreditada pela mainstream scientific opinion (opinião científica dominante), ao escrutínio de um ou mais especialistas do mesmo escalão que o autor ou autores e, só depois deste passo, quando testada e aprovada pelos tais especialistas, é que leva o carimbo de Teoria Científica e o processo fica finalizado. Tudo isto estaria bem se estes especialistas não tivessem de pertencer também ao clube da maioria (opinião científica dominante) e pudessem ser quaisquer especialistas reconhecidos como tal, mesmo que tivessem uma interpretação diferente do actual consenso científico. Ora estes outros cientistas que discordam da “maioria” nem sequer têm acesso às chamadas revistas da especialidade para nelas escreverem artigos, quanto mais para serem especialistas escrutinadores de artigos nelas escritos.
    Uma das principais vítimas desta situação, para além de outros, foi o astrónomo americano Halton Arp que trabalhou durante 29 anos no observatório do Monte Palomar na Califórnia. Ao analisar o desvio para o vermelho de algumas galáxias e quasars por ele observados, começou a duvidar da teoria explicativa ainda hoje aceite de que este era provocado pela altíssima velocidade de afastamento dos quasars (efeito Doppler) em relação à Terra, os quais se encontram a distâncias enormes da mesma e devido à expansão do Universo, o que punha em causa o Dogma do “ovo cósmico” ou da “hipótese do átomo primordial” (mais conhecida por teoria do Big Bang) do padre católico astrónomo belga Georges Lemaître. A pouco e pouco o tempo de telescópio que Halton Arp tinha no observatório foi-lhe sendo retirado até que teve de deixar de o utilizar não só no Monte Palomar como também no observatório do Monte Wilson onde ia de vez em quando. A perseguição foi tão grande que em 1983 emigrou para a Alemanha e foi trabalhar para o Instituto de astrofísica Max Planck onde esteve até morrer em Munique no ano de 2013. Apesar de tudo isto, a sua contribuição para o conhecimento astronómico é enorme, tanto que o seu Atlas de Galáxias Peculiares é hoje uma referência para o estudo da evolução das galáxias.
    A censura e a tentativa de desacreditação destes cientistas é tão grande que os representantes da “maioria” até já arranjaram um termo depreciativo para designar, pelo menos, os mais credenciados ao dizer que os mesmos sofrem da Nobel disease (doença Nobel), doença essa que só existe na cabeça daqueles que infelizmente julgam que sabem o que é a Ciência.
    Se vossemecê não percebeu bem se eu queria dizer que a ida à Lua aconteceu ou não aconteceu, aqui vai a minha resposta:
    Quanto à Apollo XI e seguintes, tenho a certeza científica absoluta que, com os dados actualmente existentes, o ser humano nunca pôs os pés no nosso satélite e bastam-me 30 minutos para demonstrar cientificamente, seja a quem for, que aquilo que eu e vários milhões de pessoas dizem é a pura das verdades.
    Com os melhores cumprimentos,
    A Besta

    • Bom dia “A Besta”,

      Recomendo-lhe a leitura destes meus outros artigos sobre Filosofia da Ciência:
      https://sophiaofnature.wordpress.com/2013/08/20/criar-ciencia/

      https://sophiaofnature.wordpress.com/2018/10/14/a-ditadura-da-verdade/

      E também o que está mal com a Ciência:
      https://sophiaofnature.wordpress.com/2016/05/27/a-falsa-ciencia-parte-i/

      https://sophiaofnature.wordpress.com/2016/06/13/a-falsa-ciencia-parte-ii/

      https://sophiaofnature.wordpress.com/2016/07/09/a-falsa-ciencia-parte-iii/

      E talvez também aprecie ler parte do que está mal com o sistema científico:
      https://sophiaofnature.wordpress.com/2019/08/31/o-que-esta-mal-com-o-sistema-cientifico/

      Mas respondendo ao seu comentário mais explicitamente:
      (1) Acho curioso que diga que a existência de exoplanetas era heresia em finais dos anos 80, porque se bem me lembro no “Cosmos” do Carl Sagan (de 1980), ele já fala da hipótese de vida noutros planetas (exoplanetas), e de certo que o livro e documentário dele eram “mainstream”… A noção que tenho é que antes de se ter boas evidências da existência de exoplanetas já se supunha que o mais provável é que existissem, pois o contrário seria assumir que o Sol era uma estrela muito especial, o que seria difícil de explicar. Já Isaac Newton (e antes dele Giordano Bruno) tinham assumido que deveriam existir planetas extrasolares. A meio do século XX, Otto Struve propôs métodos para a sua detecção (que viriam a ser usados mais tarde). Desconheço, porém, o consenso científico sobre o assunto ao longo do tempo. No entanto, é importante que se diferenciem duas coisas: até aos anos 90 não existia de facto boas evidências sobre a existência de exoplanetas (pois como você disse, essa primeira evidência de 1917 não tinha sido encarada como tal), o que é diferente de dizer que a sua existência era considerada improvável. Ou seja, dizer que não há provas é diferente de encarar a plausibilidade teórica da sua existência.

      (2) Quanto a OVNIs, como o nome indica, são Objectos Voadores Não Identificados. Se não estão identificados, não sabemos o que são. Porquê assumir que são extraterrestres? A navalha de Occam é um bom princípio a ter sempre em conta: para explicar um fenómeno devemos usar o menor número de pressupostos possível (tendo em conta a plausibilidade dos mesmos). De certo que esta abordagem não nos conduz sempre à verdade, mas é a abordagem lógica a tomar. Só se as explicações mais óbvias não funcionarem é que devemos procurar outras menos óbvias. Por outro lado, enquanto não tivermos informação suficiente sobre algo devemos só aceitar a nossa ignorância ao invés de escolhermos aceitar uma explicação pouco plausível.

      Em relação a “escritos” e “pinturas”, a explicação mais óbvia é que já existia imaginação no passado. Assim como existia ignorância, pouca iluminação, miopia sem tratamento, alucinações, etc.

      Assim, extraterrestres seriam, como você diz, “possíveis”, contudo improváveis, já que não temos evidências inquestionáveis das suas visitas.

      (3) “… verificar-se-á aquilo que sempre se tem verificado ao longo dos tempos e que é que a maioria nunca tem razão…”

      É possível. Provável ou não dependerá do assunto em causa. Olhando para o passado também vemos que a maioria já esteve errada em muita coisa, não obstante, também estiveram certos em muitas outras coisas (pelo menos à luz do conhecimento presente).

      (4) “… permite chegar à conclusão de qual é a hipótese que efectivamente explica, sem margem para dúvidas, o fenómeno em causa”

      Bom, não é bem assim. A Matemática é a única Ciência onde de facto se provam teoremas sem margem para dúvidas (e até nesta há ou poderá haver excepções). Em todas as outras Ciências há margem para dúvidas, ou pelo menos tem havido. Como disse Popper, só é possível refutar uma teoria, nunca é possível confirmá-la, porque não conseguimos demonstrar que não existem testes que podem demonstrar que a teoria está errada. Não obstante, em termos práticos se uma teoria for confirmada muitas vezes, se “funcionar” (a nível tecnológico por exemplo), e não havendo provas que a coloquem em causa, é natural assumir que a mesma deverá ser verdadeira, ainda que possivelmente apenas num dado domínio. (Por exemplo, a teoria de Newton é verdadeira dentro do domínio das escalas “comuns”, mas falsa quando analisamos o muito grande ou o muito pequeno. É claro que aqui alguém poderá questionar a definição de “verdadeiro”, mas isso será outra conversa.)

      (5) “Todo este percurso estaria correcto se, no fim do mesmo, não aparecesse um processo censório intitulado de peer review (revisão por pares).”

      O percurso estaria correcto se pudéssemos ter a certeza que os cientistas nunca se enganam, que não têm vieses, que aplicam correctamente os seus métodos, que sabem interpretar na perfeição os seus resultados, e também que são sempre completamente honestos. Todos estes pressupostos estão errados e é por isso crucial ter um processo de revisão. O processo aliás peca por em geral (e pelo menos actualmente) ser pouco sistemático. A revista científica convida normalmente uns 2 ou 3 cientistas independentes para reverem o artigo submetido e para darem a sua opinião sobre o trabalho (na qual podem incluir sugestões para melhorar o artigo em causa). Infelizmente, é pouco e por isso publica-se muito (mas mesmo MUITO) lixo. Algo que deveria ser necessário era que os revisores tentassem reproduzir os resultados ou pelo menos os métodos: isto quase nunca acontece (para não dizer mesmo que nunca acontece). Porquê? É impraticável (falta de tempo, e os revisores não são pagos pelo trabalho). Portanto, do meu ponto de vista a “censura” não só é necessária, como deveria ser muito mais bem executada para que de facto evita-se que má ciência seja publicada e que assim atrase o progresso da verdadeira ciência. (Veja nos artigos iniciais que indiquei o que considero ser “má ciência”.)

      (6) “… é que leva o carimbo de Teoria Científica e o processo fica finalizado”

      Não, é claro que as coisas não acontecem dessa forma. Em parte porque sabemos que o processo de peer review não funciona tão bem quanto devia, e também porque muitos artigos (a maioria) só apresenta evidências parciais que suportam uma (ou várias) hipóteses. No limiar da Ciência, o que não faltam são teorias e hipóteses discordantes que são consideradas em paralelo. Tem-se grupos de cientistas a tentar provar X, e outros grupos a tentar refutar X. Ambos os grupos conseguem publicar em revistas de renome.

      O “carimbo de Teoria Científica” só surge mais tarde, quando todas as evidências começam a apontar num sentido… Nessa altura publicam-se livros técnicos sobre o assunto, os quais eventualmente acabam por ser escolhidos para entrarem em currículos de estudos universitários sobre o assunto em causa. Só depois disto é que normalmente a teoria chega ao público através de livros de divulgação científica ou por outros meios. Há, contudo, excepções. Há teorias não confirmadas que também chegam ao público, como é exemplo a Teoria das Cordas. Não têm o “carimbo”, mas para o público poderá ser difícil distinguir se têm ou não esse “carimbo”, pois não é do conhecimento geral a forma como a Ciência evolui.

      (7) “Ora estes outros cientistas que discordam da “maioria” nem sequer têm acesso às chamadas revistas da especialidade para nelas escreverem artigos, quanto mais para serem especialistas escrutinadores de artigos nelas escritos.”

      Em geral não é verdade. Discordar não chega, é preciso provas. Um bom cientista foca-se nas provas e se as souber apresentar, deverá ser capaz de as publicar. Pode não ser à primeira, nem à segunda… Faz parte da vida de todos os cientistas actuais estar preparado para que os seus artigos sejam rejeitados: acontece a todos os cientistas que conheço. Mas isso não os impede de publicar: pode não ser na revista que queriam, mas eventualmente lá se consegue (o que por vezes é mau, claro). E sim, muitas vezes há artigos que mereciam ser publicados em revistas de melhor renome (e impacto), mas que acabam rejeitados e por isso são publicados em revistas de menor impacto. É importante ter em conta que para grandes alegações são precisas grandes provas. É claro que há inércia contra ideias aparentemente demasiado absurdas para serem verdadeiras. É uma inércia justificada pelo facto de na maioria das vezes serem mesmo absurdas. Mas se não o forem, mais evidência se deverá ir indo acumulando a favor dessa ideia… A verdade é verdadeira independentemente daquilo que pensemos sobre ela. O nosso método, apesar de imperfeito, deve-nos conduzir a essa verdade (ainda que nem sempre pelo caminho mais curto).

      (8) Quanto ao Halton Arp, desconheço detalhes sobre a vida dele, pelo que não me vou pronunciar. Em geral, é possível que tenha havido e que continue a existir muitas injustiças, como é expectável em qualquer sistema social humano. Por exemplo, um cientista com a opinião X a trabalhar num dado instituto gerido por alguém com a opinião Y pode ter problemas. Pode-se trocar a palavra “cientista” por “pessoa”, pois acontece em todo o lado.

      (9) “… pelo menos, os mais credenciados ao dizer que os mesmos sofrem da Nobel disease (doença Nobel), doença essa que só existe na cabeça daqueles que infelizmente julgam que sabem o que é a Ciência.”

      É claro que o problema não deve ter nada a ver com terem recebido o Nobel, pelo que o nome “Nobel disease” é pouco rigoroso. Isto é, o cientista em causa teria à partida as suas opiniões disparatadas independentemente de receber o prémio. Como descrevi no artigo, o problema está em opinarem em assuntos que desconhecem, ou em apoiarem-se em pseudociência. E, claro, no facto de serem figuras públicas com impacto na sociedade – um idiota pode dizer idiotices sem que ninguém lhe dê valor, já o mesmo não se espera de alguém que recebeu um Prémio Nobel (em Ciências). Isto é de facto muito grave, porque conduz elementos do público a uma visão ainda mais desfigurada sobre a Ciência (como é o caso da sua neste particular).

      (10) Sobre a conspiração da Lua, como disse, não desejo ter essa discussão aqui. Poderá informar-se mais sobre o tema aqui:
      https://spacecentre.co.uk/blog-post/know-moon-landing-really-happened/

      https://www.space.com/apollo-11-moon-landing-hoax-believers.html

      Todos os argumentos dos “conspiracionistas” já foram respondidos em detalhe em imensos outros sítios, pelo que não vale a pena repetir aqui a discussão.

      Se não conseguir encontrar o “rebunk” para algum dos argumentos que o convenceram a si, pode indicar-me quais foram, que poderei tentar encontrar sítios a explicar.

      Cumprimentos,
      Marinho

  4. Olá Marinho, bom dia

    …Acho curioso que diga que a existência de exoplanetas era heresia em finais dos anos 80, porque se bem me lembro no “Cosmos” do Carl Sagan (de 1980), ele já fala da hipótese de vida noutros planetas (exoplanetas), e de certo que o livro e documentário dele eram “mainstream”… A noção que tenho é que antes de se ter boas evidências da existência de exoplanetas já se supunha que o mais provável é que existissem, pois o contrário seria assumir que o Sol era uma estrela muito especial, o que seria difícil de explicar…

    Em 1980 o que é que interessava para a “mainstream” a opinião do Carl Sagan? Ele só começou a ser conhecido e a sua opinião a ser levada em conta a partir do momento em que a série Cosmos começou a ser passada nas televisões dos diversos países do mundo. Em 1980 vossemecê ainda nem sequer era nascido e em 1996 quando ele morreu só tinha 9 anos e a ideia que tem dele não corresponde em nada à importância científica que lhe era dada pela “maioria” em 1980. Nesta data, o Sol era mesmo considerado uma estrela muito especial.

    …Quanto a OVNIs, como o nome indica, são Objectos Voadores Não Identificados. Se não estão identificados, não sabemos o que são. Porquê assumir que são extraterrestres?…

    Em que ponto do meu anterior post é que eu digo que eles são extraterrestres??? Então se não estão identificados, não sabemos o que são? Ai isso é que sabemos, pois que os “não identificados” é só uma questão de semântica. A ciência, actualmente, também investiga coisas que não estão identificadas e não faz mais que a sua obrigação.

    … Em relação a “escritos” e “pinturas”, a explicação mais óbvia é que já existia imaginação no passado. Assim como existia ignorância, pouca iluminação, miopia sem tratamento, alucinações, etc. Assim, extraterrestres seriam, como você diz, “possíveis”, contudo improváveis, já que não temos evidências inquestionáveis das suas visitas.

    Exactamente o mesmo que se passa actualmente em relação à ignorância, miopia sem tratamento, etc., etc. Mais, utilizando a sua argumentação no 1º. parágrafo, dir-lhe-ia que a noção que tenho é que antes de se terem boas evidências da existência de extraterrestres já se supunha que o mais provável é que existissem, pois o contrário seria assumir que a Terra era um planeta muito especial, o que seria difícil de explicar…

    …Sobre a conspiração da Lua, como disse, não desejo ter essa discussão aqui. Poderá informar-se mais sobre o tema aqui:…

    Sobre a ida à lua, eu bem queria respeitar o seu desejo mas, face aquilo que aqui escreveu, eu acho que tenho o direito de lhe dizer o seguinte:

    Todos os sites que me possa indicar, o mais certo, é eu por lá já ter passado e quanto mais vezes os vejo mais fico convencido que o ser humano, como eu disse, nunca pôs os pés no nosso satélite, pelo que seria um milagre encontrar um “rebunk” que me fizesse mudar de opinião. Em contrapartida e, para começar, porque é que você não vai ver o link que lhe dei no 1º. post sobre a troca de impressões acerca deste tema no astropt e tenta arranjar “rebunks” para alguns dos argumentos apresentados pelo Rui Tavares?

    Com os melhores cumprimentos,

    A Besta

    • Olá “A Besta”,

      (1) A questão era se a comunidade científica considerava que exoplanetas deveriam existir nos anos 80 (ainda que não houvesse evidências concretas da existência deles). Será que a opinião de Carl Sagan era representativa? Tendo em conta onde trabalhava, esperaria que sim, mas pode ser que não[*]. De qualquer forma, você ainda não providenciou nenhuma evidência que suporte a sua alegação, pelo que para mim fica como questão em aberto (que de resto tem pouca importância).
      [*] Convém acrescentar que Sagan não só acreditava em exoplanetas, como em vida extraterrestre e também na hipótese de vida extraterrestre inteligente. (e.g. “Sagan was so persuasive that by 1982 he was able to get a petition advocating SETI published in the journal Science, signed by 70 scientists, including seven Nobel Prize winners.”) Não obstante, de certo que não se pode dizer que o projecto SETI represente a opinião da comunidade científica. A noção que tenho é que o projecto deve ter sempre parecido à maioria como sendo um empreendimento algo ingénuo, mas isso é outra conversa.

      (2) “Em que ponto do meu anterior post é que eu digo que eles são extraterrestres???” – Não diz, mas está subentendido, visto que a existência de Objectos Voadores Não Identificados é evidentemente incontestável. O que é contestável é a interpretação do que poderia ser.

      “Ai isso é que sabemos, pois que os “não identificados” é só uma questão de semântica.” – Ai sim? Então o que é? Eu não sei.

      “Mais, utilizando a sua argumentação no 1º. parágrafo, dir-lhe-ia que a noção que tenho é que antes de se terem boas evidências da existência de extraterrestres já se supunha que o mais provável é que existissem, pois o contrário seria assumir que a Terra era um planeta muito especial, o que seria difícil de explicar…”

      A existência de extraterrestres é de facto considerada provável neste momento. Pelo menos microorganismos extraterrestres parece provável. Vida “inteligente” é outra história, porque a “inteligência” (tal como a consideramos nos humanos) parece só ter evoluído uma vez neste planeta – não parece ser uma capacidade particularmente necessária para a sobrevivência. O contestável aqui é que haja evidências de que eles nos tenham visitado.

      (3) “… pelo que seria um milagre encontrar um “rebunk” que me fizesse mudar de opinião” – Terá que olhar para as evidências com mente aberta, disposto a poder ter que mudar de opinião. Há muitos anos atrás também me interessei pela questão, li bastante sobre os dois lados, e acabei convencido que à luz de tudo o que tinha lido só fazia sentido acreditar na ida à Lua. Por exemplo, se não tivessem ido à Lua, como é que seriam possíveis as experiências com os LASERs que são apontados em direcção aos espelhos deixados na Lua, que nos permitem medir a distância da Terra à Lua?
      https://en.wikipedia.org/wiki/Lunar_Laser_Ranging_experiment
      É algo confirmado por observatórios em todo o mundo que têm o equipamento adequado para fazer a experiência.

      “… no astropt e tenta arranjar “rebunks” para alguns dos argumentos apresentados pelo Rui Tavares?”

      Como disse, não sou responsável pelo AstroPT. Sim, poderia ir ler os argumentos, mas sinceramente tenho mais que fazer. Se quiser pode copiar para aqui aqueles que considere que não tenham sido adequadamente respondidos.

      Cumprimentos,
      Marinho

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