Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte II

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Na primeira parte falei-vos da história de Mary Rafferty, uma cobaia humana que sofreu choques eléctricos no seu cérebro de forma a que Roberts Bartholow descobri-se a função de várias regiões cerebrais. Da Neurologia passo para a Psicologia para vos falar de uma das experiências mais famosas na História desta: a Experiência com o Pequeno Albert (do inglês, “Little Albert experiment”).

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Em finais do século XIX, Ivan Pavlov observou o fenómeno hoje conhecido como “condicionamento clássico” (ou condicionamento pavloviano). Como descrevi no artigo sobre a memória,  Pavlov constatou que os cães que tinha no laboratório eram capazes de “adivinhar” que iam receber alimentos: começavam a salivar ainda antes de verem a comida! Os cães tinham na verdade associado certo tipo de comportamentos dos humanos que os andavam a tratar com a consequente refeição que recebiam após esses comportamentos. Quem tem animais já terá provavelmente feito a mesma constatação. Desta observação seguiram-se muitas outras experiências semelhantes onde os animais eram expostos a um estímulo incondicionado (como seja um dado som) seguido de um estímulo condicionado (o que em geral seria algo positivo, como receber alimentos, ou algo negativo, como receber um choque eléctrico). Dependendo da intensidade do estímulo condicionado, a aprendizagem pode ser mais rápida ou mais lenta. A dor física, ou o medo desta, são bons “motivadores” para se aprender depressa… Quando a associação é produzida diz-se que o animal ficou “condicionado”.

Em 1920, a Ciência chegou ao animal que vêem na imagem de cima: um bebé humano!

John B. Watson (1878 – 1958) e a sua estudante Rosalie Rayner (1898 – 1935), dois investigadores de Psicologia nos Estados Unidos (que a título de curiosidade eram também amantes), decidiram testar no pequeno Albert* três questões:

  1. Se um bebé for exposto a um animal e em simultâneo ouvir um som alto que lhe suscite medo, será que repetindo a experiência se pode condicionar o bebé a ter medo desse animal (na ausência do som)?
  2. Será que o medo irá generalizar-se para outros animais ou até objectos (que possam ter alguma relação com o primeiro animal)?
  3. Quanto tempo irá o medo persistir após as experiências? Por outras palavras, quanto tempo irá demorar o condicionamento a desaparecer?

A premissa de Watson é que o medo que os bebés têm em relação a barulhos fortes é uma resposta inata incondicionada nos bebés (tal como os cães salivam antes de comer). Por outro lado, assumiu que os bebés não têm medo de animais peludos, como os que foram usados na experiência (tal como o som dos passos do dono de um cão não implicam que o cão tenha que salivar). Assim, Watson pretendia usar o condicionamento clássico de Pavlov para observar se era possível fazer com que o bebé ficasse com medo de animais peludos (e quiçá de outros animais semelhantes, ou outras coisas peludas).

Albert tinha cerca de 9 meses aquando da experiência a que foi submetido.

Primeiro, Watson e Rayner verificaram que Albert não tinha medo de animais vivos, tais como um rato, um coelho, um cão e um macaco, assim como de “coisas” inanimadas, como algodão, uma máscara humana e um jornal em fogo. Albert até pareceu mostrar interesse pelo rato. Por outro lado, o Albert mostrava uma reacção de aflição e medo (choro) quando batiam com um martelo numa barra metálica atrás das costas dele, produzindo um som forte. Dois meses depois destes testes iniciais, começaram o condicionamento. Apresentaram o rato (branco) a Albert e em simultâneo bateram com o tal martelo na barra metálica. Repetiram a experiência sete vezes em duas sessões, com uma semana de intervalo. De seguida testaram a reacção do bebé ao rato já sem provocarem o barulho. O bebé reagiu com aflição perante o rato. Watson encontrara a resposta à primeira questão: um bebé pode ser condicionado tal como os cães.

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Esquema resumido do condicionamento de Albert.

Cinco dias depois, Watson e Rayner testaram a tal generalização (a segunda questão): ao apresentarem a Albert sucessivamente diferentes animais e coisas, verificaram até que ponto o medo era generalizado. O bebé mostrou uma forte reacção de medo não só em relação ao rato, mas também em relação a um coelho, um cão e a um casaco de pele de foca. Mostrou também uma reacção negativa (ainda que menos intensa) em resposta a uma máscara e ao cabelo de Watson. Uma reacção mais moderada foi também observada em relação a algodão. Albert não mostrou qualquer medo quando exposto a blocos de madeira e ao cabelo de uma assistente de Watson (não sei se seria Rayner), com os quais brincou sem problemas. Assim, Watson e Rayner observaram que de facto o medo generalizou-se até certo ponto para lá do rato.

Passados mais cinco dias, Watson voltou a fazer o condicionamento de Albert com o rato (uma só experiência de exposição ao rato e ao som do martelo), assim como ao coelho (com o som) e ao cão (também com o som), uma experiência cada um. Depois disso, levaram o bebé para uma sala diferente e testaram o condicionamento: a reacção de Albert em relação quer ao rato, quer ao cão e ao coelho foram apenas moderados. Esta experiência parecia sugerir que o local também era importante. Watson pensou então em refrescar a memória do bebé com o rato e o barulho. Contudo, no momento em que bateu com o martelo na barra metálica, o cão (que também estava perto do bebé) começou a ladrar alto. Desta vez, o Albert ficou com medo do ladrar do cão o que foi considerado como sendo um factor condicionante na experiência o que fez com que a mesma fosse interrompida. Por outras palavras, a partir daqui o medo de Albert em relação ao cão poderia advir de o ter ouvido a ladrar e não do condicionamento com o martelo.

Depois de 31 dias sem experiências, Watson e Rayner testaram a terceira questão. Desta vez, Albert mostrou medo quando tocou a máscara do pai Natal, o casaco de pele de foca, o rato, o coelho e o cão. Não obstante o medo, Albert também mostrou vontade de tocar no casaco e no coelho, o que foi interpretado como sendo consequência da vontade que os bebés têm em mexer nas coisas que os rodeiam. Depois disto, a mãe de Albert retirou-o da experiência. Desconhece-se ao certo o que aconteceu a Albert*.

As experiências foram filmadas e podem ser vistas no YouTube (note-se que as câmaras há 100 anos atrás não eram o que são hoje). Eis um vídeo que inclui algumas partes das experiências:

 

A conclusão principal que Watson extraiu deste estudo é que provavelmente as fobias são respostas condicionadas. Recordo que uma fobia é um medo patológico de algo. Por exemplo, a claustrofobia é o medo que algumas pessoas sentem quando estão em espaços pequenos. Assim, segundo Watson, a razão para se ter uma fobia é consequência de alguma experiência adversa que terá condicionado o indivíduo.

Para lá dos problemas éticos, a experiência tem dois problemas científicos evidentes. Primeiro, com apenas um bebé as observações apesar de sugestivas, não são conclusivas, pois não sabemos se outros bebés reagiriam da mesma forma. Segundo, o artigo onde o estudo foi descrito foi pouco detalhado, não permitindo a reprodução do mesmo e deixando demasiado espaço para interpretações diversas e muita especulação. Não obstante estas falhas, é claro que o estudo teve um impacto científico importante, pois motivou muitas outras investigações.

Só a partir de finais dos anos 70, isto é, mais de 50 anos após a experiência com o pequeno Albert, é que uma experiência deste tipo se tornou ilegal nos Estados Unidos, pois não estaria em conformidade com os códigos de ética então instituídos. Tempo mais que suficiente para que outras experiências fossem feitas… Na terceira parte irei abordar as famosas experiências com o boneco “Bobo” que foram feitas com crianças na década de 60.

 

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“Esta questão sobre o consentimento vai mesmo parar os cientistas!”
(Se a ironia não for clara: que diabólico que é o conselho de ética exigir aos cientistas que obtenham o consentimento informado dos participantes numa experiência!)

 

*Nota: Na verdade não se sabe bem quem era o bebé na experiência. Albert foi apenas o pseudónimo que lhe foi dado. Duas hipóteses possíveis são Douglas Merritte e William Barger. A questão é relevante pois gostaríamos de saber se o bebé era de facto saudável e também o que lhe aconteceu depois. Douglas Merritte não era saudável aquando das experiências e morreu com cerca de 6 anos de idade. William Barger era saudável e viveu até aos 87 anos (segundo uma sobrinha, William não gostava de cães). 

 

Bibliografia:
Harris (1979), Whatever happened to little Albert?
https://en.wikipedia.org/wiki/Little_Albert_experiment

 

Marinho Lopes

3 thoughts on “Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte II

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