Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte V

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“Fizemos tudo o que os adultos fariam. O que é que falhou?” [1]

Esta frase de William Golding no seu famoso “O Deus das Moscas” (1954) ilustra o pessimismo do autor sobre a natureza humana. Sem restrições sociais, quais seriam os instintos naturais que iriam imperar? Não somos uma tábula rasa [2], pelo que devemos ter uma tendência natural para cooperar ou competir, para partilhar ou roubar, para sermos altruístas ou sádicos, para amar ou odiar. É curioso observar que muitos desculpam comportamentos egoístas, ou até tirânicos em indivíduos que possuem uma posição de poder. A racionalização implícita é que as circunstâncias justificam o comportamento. Será que justificam?

Philip Zimbardo propôs-se a responder a uma questão semelhante no começo da década de 1970: será que a então conhecida brutalidade dos guardas prisionais americanos poderia ser atribuída a uma personalidade particularmente sádica dos guardas, ou será que as circunstâncias do trabalho numa prisão poderiam em parte ditar o comportamento?

Zimbardo colocou um anúncio no jornal para recrutar participantes para um estudo sobre os efeitos psicológicos de viver na prisão. Os participantes receberiam $15 por dia. 75 pessoas responderam ao anúncio. Depois de eliminar candidatos com problemas psicológicos (ou outros problemas de saúde), bem como candidatos com histórico criminal ou de abuso de drogas, os 24 candidatos avaliados como sendo os mais saudáveis de um ponto de vista físico, mental e social foram seleccionados. Um dos 24 desistiu, 2 foram definidos como potenciais substitutos e ficaram como reservas. Os 21 restantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: prisioneiros (10) e guardas prisionais (11).

A experiência começou com a detenção dos participantes que tinham ficado com o papel de prisioneiros [3]. Seguindo o protocolo policial em vigor, foram levados até ao posto da polícia para criar o cadastro criminal. Em seguida, foram vendados e levados até ao departamento de Psicologia da Universidade de Stanford onde Zimbardo tinha criado uma imitação de uma prisão. Nesta, tal como numa prisão real, os prisioneiros foram destituídos de tudo quanto tinham com eles. Em troca receberam as roupas da prisão e um número. Este número seria a sua nova identidade e foram proibidos de usar os seus nomes próprios.

Os que foram nomeados guardas prisionais receberam fardas, um apito e um cassetete. Além disto, receberam também óculos de sol de forma a evitar contacto visual com os prisioneiros. As instruções que receberam de Zimbardo (que ficou com o papel de director da prisão) eram simples: façam o que for necessário para manter a ordem na prisão, mas sem recorrer a violência física.

Passado poucas horas após o começo da experiência, os guardas principiaram a “testar” os seus poderes. Durante a noite, os prisioneiros foram acordados para os guardas fazerem a contagem… um “ritual” que se repetiu muitas vezes.

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Tanto guardas como prisioneiros começaram a levar os seus papeis bastante a sério…

O “drama” intensificou-se rapidamente, pois se por um lado os guardas começaram a abusar dos seus direitos e dos seus poderes, por outro lado os prisioneiros começaram a revoltar-se contra tal tratamento. Apesar da violência física não ser permitida, punições físicas tornaram-se de imediato comuns sob a forma de flexões (por vezes com outros prisioneiros sentados nas costas daquele que estava a ser punido).

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No segundo dia da experiência os prisioneiros organizaram uma revolta! Barricaram-se dentro das celas de forma a evitar a opressão dos guardas. Em resposta, os  guardas usaram extintores de incêndio contra os prisioneiros de forma a desimpedir as celas e restaurar o controlo. Como castigo, retiraram as camas das celas e despiram os prisioneiros. Os líderes da revolta foram identificados e colocados em prisão solitária.

Após a revolta, os prisioneiros tornaram-se mais submissos. Em contraste, os guardas tornaram-se mais agressivos e passaram a impor maior obediência. O desprezo dos guardas para com os prisioneiros era claro.

Neste segundo dia, um dos prisioneiros começou a “endoidecer” segundo Zimbardo. O estado psicológico dele era tal que ele tinha ataques de choro num estado de raiva descontrolado, a gritar e a praguejar. Zimbardo deixou-o sair da experiência.

O objectivo era que a experiência durasse duas semanas, mas Zimbardo teve que a concluir (cancelar) no sexto dia devido ao colapso emocional dos prisioneiros e ao comportamento excessivamente agressivo dos guardas.

Zimbardo concluiu que esta experiência demonstrava que as pessoas apropriam-se prontamente dos papeis sociais que lhes são atribuídos, em particular se existirem estereótipos claros sobre os mesmos. Por outras palavras, uma vez que Zimbardo tinha tentado recrutar pessoas “normais” para o papel de guardas, o comportamento agressivo e cruel destes deveria ser o resultado das circunstâncias. Muitos até se podem sentir tentados a concluir que o mal no mundo deriva em grande parte das circunstâncias. Zimbardo sugeriu que pessoas inocentes e inofensivas a quem fosse oferecido poder poderiam facilmente abusar desse poder. Em contraste, aqueles que fossem colocados numa situação de impotência poderiam facilmente sucumbir e tornar-se submissos, ou até mesmo enlouquecer.

 

Como deverá ser claro, a validade científica destas conclusões é muito questionável dada a fraca qualidade do estudo. A experiência é hoje tida mais como que uma história interessante, um género de Big Brother da Psicologia, do que como ciência séria. É importante notar que os guardas foram como que treinados para ser cruéis. “Eu pensei que estava a fazer o que os investigadores queriam que eu fizesse”, disse um dos participantes. Ou seja, os resultados podem ser em parte explicados pela experiência de Milgram, isto é, os guardas estavam simplesmente a seguir as ordens de uma “autoridade” (o próprio Zimbardo). Mais ainda, há evidências de que os guardas sabiam os resultados que o Zimbardo esperava observar!… Ou seja, é como se as conclusões tivessem sido pré-definidas e a experiência tenha servido apenas para as “confirmar”. Ciência? Chamar-lhe-ia antes uma farsa.

 

Os problemas éticos são também claros: tanto os prisioneiros como os guardas sofreram danos psicológicos. Por um lado os prisioneiros foram humilhados e colocados em situações de tensão emocional extrema, por outro lado os guardas viram-se a si mesmos a cometer actos cruéis… Os participantes assinaram um documento de consentimento sobre a sua participação no estudo, contudo, uma vez que Zimbardo não sabia bem o que iria acontecer, isso acabou por tornar o consentimento algo inócuo. Note-se que o estudo tinha sido aprovado pelo Office of Naval Research e pelo comité de experimentação em humanos da Universidade de Stanford, contudo, tal como o Zimbardo, os comités não conseguiram antecipar os resultados funestos da experiência.

O aspecto positivo é que como consequência deste estudo as orientações éticas da Associação Americana de Psicologia receberam uma nova actualização, pelo que um estudo deste género não pode ser replicado (pelo menos nos Estados Unidos e em muitos outros países que implementaram directrizes semelhantes).

Após a experiência, Zimbardo entrevistou e questionou ao longo de semanas, meses e anos os participantes. Felizmente, a conclusão foi que a experiência não causou danos psicológicos permanentes (aparentes) em nenhum dos participantes.

 

Para mais detalhes sobre a experiência recomendo o filme The Standford Prison Experiment (2015).

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“Baseio a minha visão sobre a natureza humana num estudo de seis dias com 22 jovens seleccionados não aleatoriamente, no qual o investigador participou de forma activa.” – “Isto é o que oiço quando alguém cita a experiência da prisão de Zimbardo.”

 

[1] Tradução livre do inglês: “We did everything adults would do. What went wrong?”
[2] Ver, por exemplo, o livro “The Blank Slate” de Steven Pinker. Irei detalhar o tema num artigo futuro.
[3] Os prisioneiros não tinham sido informados de que iam ser detidos pela polícia, pelo que foram apanhados de surpresa, muito deles em casa, na presença da família.

Bibliografia:
Pequeno artigo sobre a experiência de Zimbardo:
https://www.bbc.co.uk/news/world-us-canada-14564182

Um artigo mais profundo sobre a experiência:
McLeod, S. A. (2020, Jan 21). Zimbardo – Stanford prison experiment. Simply psychology: https://www.simplypsychology.org/zimbardo.html

Sobre os problemas da experiência de Zimbardo e mais genericamente sobre a crise da replicação em Psicologia:
https://www.vox.com/2018/6/13/17449118/stanford-prison-experiment-fraud-psychology-replication

 

Marinho Lopes

2 thoughts on “Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte V

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