Uma nova realidade – parte I

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Uma nova realidade exige uma nova perspectiva e um novo entendimento. As “regras” mudaram e por isso temos que nos adaptar. Não é meu costume comentar a actualidade neste blogue, mas o coronavírus merece a excepção. Neste artigo vou partilhar alguma informação que considero útil, bem como dar a minha opinião pessoal sobre vários temas que têm sido discutidos a par do vírus. (Espero estar a partilhar uma opinião suficientemente informada, mas se disser algum disparate, agradeço que me corrijam nos comentários.)

Não quero repetir aqui o que todos já sabem (ou deviam saber) sobre o vírus. Para obterem informações genéricas sobre o vírus recomendo que usem fontes fidedignas, como o site da OMS (se não souberem inglês, podem escolher espanhol em cima; ou usem o google translator para traduzir a página). Para estatísticas actuais sobre o vírus, recomendo o worldometer.

 

No momento em que escrevo isto quase todo o mundo já tem casos confirmados do coronavírus (189 países):

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Um total de quase 340 mil casos e quase 15 mil mortes. Daqui a umas horas o “quase” já estará ultrapassado.

 

Em Portugal tem progredido assim:

casos

(Gráfico obtido usando o worldometer indicado em cima.)

No eixo horizontal temos os dias (a evolução temporal) e no eixo vertical temos o número total de casos. Uma curva deste género é aproximadamente exponencial, o que significa que o crescimento dá-se a uma taxa acelerada. Em contraste, se o crescimento fosse linear, isso implicaria uma taxa constante (por exemplo, mais 10 casos por dia a cada dia). Numa taxa acelerada, hoje podemos ter 10 casos, mas amanhã teremos mais, e depois de amanhã ainda mais e assim sucessivamente.

Porque é que tal acontece? Porque quando uma pessoa “apanha” o vírus, tem uma dada probabilidade de o passar a várias, e depois cada uma dessas várias tem a probabilidade de passar a outras várias, seguindo-se como que um efeito de dominó:

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O crescimento só deixa de ser exponencial quando há uma “saturação”, isto é, quando há um limite no número de pessoas que podem ser infectadas. É claro que este limite existe sempre, porque existe um número limitado de humanos. Assim, numa escala temporal maior a curva terá necessariamente que ter este formato:

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Este crescimento chama-se logístico. Note-se que no crescimento logístico a taxa de novos casos não é sempre acelerada. É acelerada ao princípio, como disse em cima, quando o crescimento é semelhante a uma exponencial (no primeiro terço de tempo na figura de cima), mas depois a taxa passa a ser desacelerada (segundo terço), isto é, o número de novos casos passa a ser cada vez mais reduzido. O ponto temporal (dia) no qual a taxa transita entre aceleração (cada vez mais casos por dia) para desaceleração (cada vez menos casos por dia) é chamado de ponto de inflexão.

Qual a relação do gráfico de cima com os gráficos que se têm visto mais pelas notícias? Refiro-me a este tipo de gráficos:

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É fácil – as curvas que apresentei em cima referiam-se ao número total de casos (activos e não activos), ou seja, curvas que têm que necessariamente crescer sempre. Em contraste, as curvas nesta imagem referem-se apenas ao número de casos activos. Assim que se atinge a inflexão no número total, estar-se-á perto de atingir um número máximo de casos activos, pelo que se segue um decrescimento do número de casos activos.

Como é claro, não há nenhum sistema de saúde no mundo que consiga dar resposta a um crescimento exponencial de casos (em particular tendo em conta que neste vírus cerca de 20% dos casos activos requer cuidados médicos). Assim sendo, tenta-se fazer o “achatamento” da curva (como indicado pela área azul na figura de cima). Isto é, atrasar a propagação do vírus de modo a que não fiquem demasiadas pessoas a necessitar de cuidados de saúde em simultâneo. É por isto que medidas de distanciamento social são tão importantes, para que aqueles que estão infectados não infectem mais pessoas. Uma vez que muita gente não terá sintomas durante 3 a 5 dias depois de ter contraído o vírus (ou mesmo depois disso), é importante que todos nos comportemos como se tivéssemos o vírus para proteger os outros e com isso proteger os serviços de saúde. Não só devemos assumir que nós mesmos temos o vírus, como também devemos assumir que os outros o possam ter. Se és jovem e saudável, não penses que isso é razão para não te preocupares, pois estarás a colocar a vida de outros em risco. (Por outro lado, se tiveres um acidente e tiveres que ir ao hospital, poderás encontrá-lo sobrelotado e incapaz de te tratar…)

 

O que todos querem saber é quanto tempo isto vai demorar… Infelizmente, até termos uma vacina, esta situação deverá continuar. E não obstante as notícias quase diárias sobre novas vacinas em fase de testes, a verdade é que parece improvável que se tenha uma vacina pronta antes de um ano ou ano e meio [1]. Por mais que se queira acelerar o desenvolvimento da vacina, testar a segurança e fiabilidade da mesma demora tempo. O que se supõe que aconteça é que com as medidas de bloqueio os números de novos infectados acabem por estagnar, de tal forma que isso permita um desbloqueio sucessivo, mas controlado, da sociedade. Note-se que não havendo meios técnicos para testar toda a gente, é possível que após uma fase de controlo (após o ponto de inflexão), em que se comece a desbloquear a sociedade, volte a haver um novo surto e uma nova fase exponencial… seguido de novas medidas de bloqueio. Poderemos portanto ter vários bloqueios e desbloqueios nos próximos meses. Parece-me improvável que os desbloqueios sejam totais. Isto é, suponho que continuem a haver limitações consideráveis para diminuir a probabilidade de surtos com acelerações elevadas de novos casos. Um factor que se considera relevante nesta aceleração é a densidade populacional, que em suma se traduz no número médio de pessoas que supomos que uma pessoa infectada terá hipótese de infectar. Assim, suponho que se continue com medidas que impeçam o contacto entre muitas pessoas.

Algo que espero que aconteça é que após o caos inicial se consiga controlar a situação à medida que temos um conhecimento mais profundo sobre o vírus. O português é ambíguo na “esperança”: isto é o que eu desejo, mas infelizmente não necessariamente o que prevejo que aconteça. Penso que poderá ser assim em alguns países, mas não noutros, em particular não naqueles que não vão ter os recursos humanos e de infraestrutura para responder a este desafio. Tendo isto em conta, penso que haverá muitos países que vão ficar com as fronteiras fechadas até ao final desta crise (ou melhor, poder-se-á talvez entrar em países com o surto descontrolado, a dificuldade estará em voltar a países com o vírus controlado).

 

Um outro aspecto que quero comentar é a interpretação dos números. A grande maioria dos países não têm capacidade para seguir a recomendação da OMS de “testar, testar, testar”. É certo que o número total de infectados neste momento é muito superior aos 340 mil referidos em cima. Em muitos países poderá ter-se a percepção errada de que se está perto de alcançar um ponto de inflexão por se constatar que o número de novos casos não está a acelerar… Contudo, tal pode ser a consequência de uma saturação nos meios ao dispor para diagnosticar. Deste ponto de vista, olhar para a taxa diária do número de mortos pode ser um indicador mais fiável se estamos ou não perto da tão desejada inflexão, pois suponho que seja um indicador mais difícil de saturar. (Não obstante, é provável que em muitos países até mesmo este indicador venha a não ser fiável.)

Uma outra adenda que queria dar para pensar de forma positiva sobre os números actuais de mortos, é que a verdade é que pessoas idosas e de alguma forma vulneráveis morrem todos os anos. Neste momento estão a morrer a uma taxa avassaladora em certos locais (Itália em particular), mas é possível que uma percentagem significativa delas fosse morrer este ano de qualquer forma! Se não fosse o coronavírus, seria outra coisa.

Uma outra adenda positiva a ter em conta é que a taxa de mortalidade pode neste momento estar inflacionada em muitos países. Digo isto com base nos números da Alemanha, que parece ser o país que tem testado mais pessoas e como tal tem percentagens de mortalidade mais reduzidas [2]. Por outras palavras, os outros países têm focado mais os testes em casos de ligeira ou elevada gravidade e como tal têm obtido números que não reflectem a existência de mais casos de menor gravidade. É natural que assim seja: não havendo capacidade para testar toda a gente, focam-se os testes naqueles que precisam mais de ser testados.

Por outro lado, para aqueles que tenham curiosidade em calcular a taxa de mortalidade: lembrem-se que esta não é simplesmente o número total de mortos a dividir pelo número total de casos. Há um desfasamento temporal entre os dois, pois desde os primeiros sintomas até à morte vão em média duas semanas. Assim, é necessário dividir o número total de mortos agora pelo número total de casos há duas semanas atrás. Mas, como referi em cima, os números poderão estar inflacionados devido à falta de testes em casos de gravidade reduzida (ou até sem sintomas).

 

Bom, queria comentar mais uns “detalhes”, mas como o artigo já vai longo, deixo o resto para amanhã.

 

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[1] https://www.theguardian.com/society/2020/mar/19/uk-drive-develop-coronavirus-vaccine-science
[2] https://www.ft.com/content/c0755b30-69bb-11ea-800d-da70cff6e4d3

Marinho Lopes

2 thoughts on “Uma nova realidade – parte I

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