Uma nova realidade – parte II

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Na primeira parte falei do crescimento exponencial e logístico, do ponto de inflexão, do “achatamento” da curva, e da importância do distanciamento social. Referi ainda de forma breve a previsão de quanto tempo isto vai demorar, bem como algumas considerações a ter quando olhamos para os números de infectados e mortos.

Começo esta segunda parte com a magnitude do problema. Infelizmente sei que estarei a escrever para um público que provavelmente já tem noção que estamos à beira de uma catástrofe de proporções bíblicas e que, por isso, não precisa de ser recordado disto. O público que não o sabe ou aceita é aquele que gostaria que lesse isto, visto serem aqueles que irão continuar a desprezar as medidas de distanciamento social e que, por isso, serão em parte responsáveis pelo agravamento da crise.

Creio que um ponto crucial que tem confundido o grande público no princípio desta pandemia tem sido as várias escalas temporais associadas à mesma. Temos várias contagens paralelas que se encontram desfasadas entre si. Em primeiro lugar o número de infectados cresce. Este é um número que desconhecemos!! Em segundo lugar cresce o número de casos diagnosticados. Notar que este número tem necessariamente um desfasamento de vários dias em relação ao número real de infectados, pois não só os resultados do teste demoram tempo a obter, como também é mais provável testar aqueles que já têm sintomas, sendo que os sintomas só se manifestam passado alguns dias… Isto para não falar de que não há capacidade para testar toda a gente. O resultado disto é que o número de casos confirmados tem um desfasamento de vários dias em relação ao número real de infectados! Ao final do dia de ontem havia 1600 casos confirmados em Portugal. Isto significa portanto que deve haver já mais de dez mil infectados (por comparação com países que estão mais “adiantados”). Depois vem a contagem de casos graves. De novo há um atraso neste indicador, porque desde que se é diagnosticado até que se fica em estado grave passam alguns dias. E, finalmente, vem a contagem dos mortos, que, de novo, tem um desfasamento: desde os primeiros sintomas até à morte passam em média 14 dias.

Todos estes desfasamentos temporais contribuem para um outro desfasamento: o da percepção do público. Um entendimento deficiente sobre a pandemia pode fazer com que muitos pensem que o facto de “só” haver 1600 casos confirmados em Portugal e “apenas” 14 mortos até ao momento significa que em Portugal as coisas não estão assim tão mal… Pode levar a pensar-se que se precisarmos de impor o distanciamento social, que isso ainda não é para já, pois a situação ainda não chegou aos números de Itália… Este tipo de raciocínio é uma falácia grave, porque faz com que se adiem medidas que são de facto urgentes! Os números actuais já implicam a inevitabilidade de daqui por umas semanas tenhamos centenas de mortos, mesmo que comecemos já a tomar medidas. Assim, haverá ainda um outro desfasamento mais tarde na percepção social: vai parecer que as medidas de contenção do vírus não estão a funcionar nas primeiras semanas! Será preciso paciência e disciplina. (Além disto, de forma implícita no que disse, há também o desfasamento entre a propagação do vírus nos vários países…)

É importante sublinhar que a crise do vírus não acontecerá só aos outros! Neste caso todas as evidências apontam para que aconteça em praticamente todos os países! Os serviços de saúde vão ficar saturados e ter-se-á que deixar muita gente morrer sem assistência médica (e sozinhos). Nessa altura é possível que as taxas de mortalidade aumentem.

A taxa de mortalidade de 3.4% anunciada pela OMS no dia 3 de Março tem pouco significado por si própria. Devemos pelo menos estratificar esta taxa por idade:

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Dados de acordo com o worldometer no dia 23 de Março. Estes números devem ser interpretados da seguinte forma. Tomando como exemplo a faixa etária entre os 70 e 79, por cada 100 pessoas infectadas nesta faixa etária, 8 morre – daí os 8 por cento de taxa de mortalidade na tabela de cima.

De forma aproximada, e sem o uso de medidas severas de contenção do contágio, é previsível que perto de 1 em cada 10 idosos morram devido ao coronavírus. (Alguns dados a ter em conta: entre 60 a 80% das pessoas poderão vir a contrair o vírus; e há mais idosos com idades compreendidas entre os 70 e os 79 do que com mais de 80 anos.) Dado que cerca de 20% da população portuguesa tem mais de 65 anos, isto significa que poderão vir a morrer mais de 100 mil pessoas só em Portugal e quiçá perto de 200 mil caso não se tomem medidas bastante drásticas para impedir a propagação do vírus. A nível mundial estamos a falar de muitos milhões de mortos. O distanciamento social é por isso crucial para que a propagação do vírus seja mais lenta e que como tal consigamos salvar vidas até termos uma vacina!

Como aludi na primeira parte, o acesso a cuidados de saúde ficará muito restringido para toda a gente: as outras doenças não vão tirar férias e acidentes vão continuar a ocorrer, o que significa que a mortalidade em geral vai aumentar.

 

Isto por si só já teria um impacto brutal na sociedade, porém, as medidas tomadas para suavizar este cenário terão também um impacto muito nefasto não só na economia, como na nossa vida em geral. Somos animais sociais e, como tal, precisamos de socializar. Lidar com a “prisão domiciliária” durante um longo período não será fácil. Não obstante, é bom recordar que vivemos o melhor momento da História para lidar com esta situação: não só temos a possibilidade de falarmos e de nos vermos à distância, como também temos imensos divertimentos à disposição. Recordo, por exemplo, que há imensos cursos online de elevada qualidade que podem frequentar gratuitamente.

 

Tendo-se digerido estes factos, temos que seguidamente exercitar paciência, calma e compreensão. Uma vez estando a fazer o nosso papel de manter distância social, será importante controlarmos o medo, o pânico e a ansiedade que não nos ajudam em nada.

A compreensão para com os outros parece-me importante para amenizar potenciais conflitos que podem resultar desta nova realidade. Refiro-me por exemplo à compreensão no meio doméstico (onde se teme que possa haver um aumento significativo de violência doméstica). Refiro-me também a compreensão em relação às várias instituições que neste momento têm que tomar medidas sem precedentes. Em particular, é fácil criticar um governo quer por tomar certas medidas, quer por não as tomar (não me refiro só ao governo português). Fará sentido fazê-lo? Criticar em retrospectiva é fácil, mas também injusto, pois dispomos de informação que poderia não existir antes. Tratando-se de uma situação sem precedentes, os governos estão neste momento a aprender a responder à pandemia. Nessa aprendizagem nem sempre é claro se se pode simplesmente copiar as estratégias bem sucedidas usadas por outros países, pois é necessário ter em conta que as circunstâncias são diferentes: densidade populacional diferente, hábitos de socialização diferente, e até temperatura e humidade diferentes poderão ser alguns dos critérios a influenciar a taxa de propagação do vírus e que variam de país para país, o que por sua vez deve condicionar as medidas tomadas. Não se pode simplesmente “jogar pelo seguro” e fechar toda a gente em casa, pois tal teria um impacto incomportável na economia, claro: precisamos de pelo menos alimentar a população e providenciar em geral os serviços essenciais. Definir o momento certo para tomar medidas é a questão chave para a qual não há respostas definitivas. Não quero com isto dizer que todas as críticas sejam injustificadas ou inúteis, no entanto quando as fizermos devemos considerar que as alternativas que estamos a propor não seriam necessariamente melhores. O que se exige é que os governos tomem decisões o tanto informadas quanto possível. Para isso é importante consultar epidemiologistas, técnicos de logística médica, imunologistas, economistas e a comunidade científica em geral, de forma a tomar decisões com base nas melhores previsões que somos capazes de obter. Antes de julgarmos a potencial incompetência de quem nos governa talvez seja importante dar o benefício da dúvida.

 

Acrescento ainda um aspecto subtil na interpretação de probabilidades. O facto do coronavírus se ter transformado numa pandemia descontrolada não implica que este fosse o cenário mais provável quando o vírus surgiu na China. Contudo, quando algo acontece, em retrospectiva temos a tendência de pensar que aquilo que aconteceu deveria ser de facto o mais provável de acontecer. Não necessariamente! Eventos de baixa probabilidade acontecem todos os dias! E, claro, é difícil julgar a probabilidade de algo novo. A tendência é agrupar o novo com algo que conhecemos, o que nem sempre é correcto. Quando o coronavírus apareceu, todos queriam acreditar que era apenas mais um vírus, quiçá semelhante ao da gripe das aves… Não era.

Na terceira parte darei a minha opinião sobre as consequências do coronavírus na liberdade e direitos sociais, assim como das consequências ambientais.

 

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Deixo o apelo a que façam compras com moderação: pensem nos outros. Para já não há razões para crer que a cadeia de mantimentos vá entrar em disrupção. Se quiserem armazenar mantimentos, façam-no lentamente.

 

Marinho Lopes

One thought on “Uma nova realidade – parte II

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