Entrevista para o Barómetro Social

Fui recentemente entrevistado pelo João Aguiar do Barómetro Social. Nesta entrevista questionaram-me sobre a problemática da pseudociência, sobre a importância de reportar resultados negativos na ciência e ainda sobre o impacto da divulgação de ciência na sociedade.

A entrevista foi publicada aqui – Plataforma do Barómetro Social, uma iniciativa do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Copio para aqui a entrevista completa*:

1 – A pseudociência tem-se disseminado de um modo vincado. Paradoxalmente, tal facto ocorre num período histórico em que nunca houve tanto impacto do desenvolvimento científico e tecnológico. A que pensa que se deve este desfasamento?

A ciência, a tecnologia e o desenvolvimento social permitiram-nos entrar numa nova era: a era da informação. Por vezes não nos damos conta da sorte que temos em viver numa altura em que a grande maioria das pessoas não só sabe ler, como tem acesso livre a uma enorme fonte de conhecimento. É algo novo e creio que a sociedade ainda se está a adaptar a esta nova realidade.

Infelizmente, o acesso facilitado a informação também permitiu ampliar a desinformação, a manipulação, a pseudociência e a fraude. Deste ponto de vista, não há paradoxo. A tecnologia e a liberdade permitem tanto a disseminação de informação como de desinformação. Não obstante, é grotesco constatar que parte da desinformação diz respeito às próprias tecnologias que permitem a sua difusão, como sejam teorias da conspiração em torno da rede 5G.

Do meu ponto de vista o desfasamento resulta de uma disparidade entre a taxa de progresso científico e tecnológico e a necessária evolução educacional e social que a deve acompanhar. As novas tecnologias criaram um novo paradigma social. Este novo paradigma não foi pensado nem regulado de acordo com a tecnologia, foi antes apenas uma mera resposta às novas circunstâncias. Exige-se agora redesenhar a sociedade de forma a minimizar o problema. Não será fácil, pois a desinformação tem grande vantagem sobre a informação: é conveniente. A verdade pode ser difícil de compreender, enquanto que uma mentira é inventada de forma a ser fácil de perceber e convencer. Este é um dos aspectos que dá vantagem à propagação da pseudociência em relação à ciência, visto que em geral a pseudociência é simples, enquanto que a ciência é (ou pode ser) complexa. Por outro lado, a ciência tem uma vantagem crucial sobre a pseudociência: é verificável. Resta, portanto, educar a sociedade de modo a que todos compreendam a importância fundamental do espírito crítico, do cepticismo e da procura activa de provas que fundamentem qualquer tipo de informação ou opinião.

2 – Até ao advento da Ciência moderna, os sentidos humanos pareciam ser a melhor porta de acesso ao conhecimento do mundo. A matematização do mundo permitiu-nos compreender o universo num âmbito muito mais vasto, onde passou a ser possível agregar dados, padronizar e sistematizar conhecimentos, replicar e comparar resultados. De que maneira é que a negligência ou uma certa “fuga” ao raciocínio matemático em relevantes setores da população escolar ao longo de décadas contribui para a difusão da pseudociência (flat-earthers, etc)?

Não obstante o problema da pseudociência, da desinformação viral, das “fakes news”, etc., bem como da incapacidade de uma larga parte da população não saber lidar com as mesmas, estou convencido que o público em geral nunca foi tão culto, nem tão bem instruído quanto o é hoje. Por outras palavras, o público em geral nunca esteve preparado para lidar com esta pandemia de desinformação.

Isto significa que não é claro o nível de “imunidade” que se pode esperar alcançar com a educação. É concebível supor que a desinformação não vai desaparecer pois haverá sempre pessoas susceptíveis a ela.

Para fortalecer essa imunidade será de certo importante investir em ensino que fomente o raciocínio matemático e lógico que está na base do pensamento científico. É importante que todos aprendamos a pensar sem tropeçar em contradições e falácias. Tal permite-nos não só conceber ideias melhor fundamentadas, como também saber julgar as ideias dos outros. Deste ponto de vista, é crucial fazer passar a noção de que o pensamento analítico (matemático/lógico) é aplicável em todas as circunstâncias da nossa vida. A educação da Matemática (e das Ciências em geral) tem por isso que ser actualizada de forma a garantir que os alunos reconheçam a aplicabilidade genérica da mesma. Por exemplo, será importante treinar os alunos a usar pensamento lógico de forma a ultrapassarem ou mitigarem viés cognitivos (viés de confirmação, preconceitos, efeito Dunning-Kruger, etc.).

3 – O sistema científico de que fala num artigo (O que está mal com o sistema científico?) tem valorizado uma visão de produção incessante de artigos, citações, etc. Neste mesmo artigo, menciona que “maus resultados não são publicados em revistas de elevada reputação, independentemente do tempo investido”. Ou seja, considera que existe uma certa obsessão por apresentar resultados positivos (de um potencial fármaco, de uma hipótese que se confirme, etc)? Num plano meramente especulativo, não seria igualmente interessante incorporar os resultados negativos na discussão científica?

Há decerto uma “obsessão” em publicar muito, pois é para muitos cientistas a única forma possível de aumentar a probabilidade de conseguir progredir na carreira científica, probabilidade essa que é por norma bastante reduzida. Para os mais “jovens” que vivem de bolsas ou, na melhor das hipóteses, contratos a termo, que fazem doutoramentos e pós-doutoramentos, a “obsessão” é quase inevitável, dada a competição por essas bolsas e contratos (onde a taxa de insucesso ronda em muitos casos os 90%). Os que “sobrevivem” ao sistema de eliminação são necessariamente aqueles que parecem obcecados. Há ainda a “obsessão” específica com resultados positivos, porque são esses que são publicados nas melhores revistas, isto é, aquelas que têm maior reputação, sendo que são este tipo de publicações que têm maior valor no currículo de um cientista. Portanto, sim, concordo que haja uma obsessão em apresentar resultados positivos. Não obstante, é claro que a motivação não é apenas financeira. Todos queremos descobrir resultados positivos porque são esses resultados que podem de facto mudar o mundo para melhor. Descobrir uma nova droga que cura uma doença é claramente mais importante que descobrir que uma droga não serve um dado objectivo.

O problema emergente disto é que os cientistas se sentem pressionados a sobrevalorizar os seus resultados, de forma a que estas pareçam positivos, ou pelo menos não-negativos. Um outro problema é que se cria um viés na literatura científica motivada pelo facto de que os resultados positivos recebem muito mais atenção que os negativos. Uma consequência deste viés é que, por exemplo, haja a possibilidade de que boas ideias associadas a resultados negativos não sejam discutidas. Ou que, por exemplo, tentativas infrutíferas sejam repetidas mais vezes, pois os cientistas poderão não saber que a sua tentativa já foi refutada por outros cientistas. Talvez ainda pior que isto, o sistema cria um género de “p-hacking” emergente. Isto é, em ciências onde as descobertas dependem de testes estatísticos há sempre um certo nível de incerteza nessas descobertas. Se aceitarmos um nível de incerteza de 5%, isto significa que em 5% das experiências poderemos concluir algo errado por mero acaso. Assim, tendo milhares de cientistas a testar hipóteses semelhantes pelo mundo inteiro, podemos em certos campos encontrar descobertas que correspondem aos 5% do acaso. Tal não seria um problema se os outros 95% tivessem o mesmo tipo de impacto no meio científico que esses 5%. Mas não é isso que acontece. O resultado positivo por mero acaso pode aparecer em revistas científicas lidas pela generalidade dos cientistas, enquanto que os correspondentes resultados negativos podem ser relegados para revistas que não suscitam tanto interesse…

Respondendo à segunda questão, sim, é preponderante pensar em formas de incorporar os resultados negativos na discussão científica. No caso de falsas descobertas, estas acabam por ser descredibilizadas, mas o processo não é tão eficiente e económico quanto poderia ser caso os resultados negativos tivessem maior cobertura. Em geral, o importante seria haver uma maior abertura a discutir ideias, hipóteses e métodos, ao invés de haver um foco tão grande nos resultados. Compreender o porquê de uma ideia não funcionar poderá ser a forma mais rápida de encontrar a ideia que de facto irá funcionar.

4 – É possível afirmar que existe uma maioria de cientistas que não desenvolve atividades de divulgação científica para o público em geral? Que impacto pode ter a divulgação científica nas nossas sociedades?

Desconheço os números oficiais, mas a percepção que tenho é que a esmagadora maioria não faz qualquer tipo de divulgação científica, a menos que seja “obrigada”. A obrigação pode resultar, por exemplo, de critérios de avaliação impostos por organismos de financiamento científico. Na realidade que conheço no Reino Unido, muitos cientistas têm que fazer pelo menos um pouco de divulgação científica de forma a manterem-se competitivos nos concursos de financiamento científico. Por um lado, creio que é uma iniciativa positiva, por outro duvido que os meios usados sejam os melhores.

A ligação entre os cientistas e o público é importante e deve ser promovida, contudo parece-me faltar uma aposta clara nos intermediários. Um cientista não se torna num divulgador de ciência efectivo só com boa vontade (e alguns workshops). Também não é claro para mim que todos os cientistas devam investir parte do seu tempo a tornarem-se em melhores divulgadores. Sou da opinião que cabe antes a divulgadores de ciência especializados fazer a ponte entre os cientistas e o público de forma a garantir uma comunicação clara e proveitosa para ambos.

O impacto de uma maior comunicação seria benéfico tanto para o público, como para os cientistas. O impacto no público não estaria limitado a um carácter lúdico e informativo, como talvez por vezes se possa deduzir. Grande parte da ciência que se faz hoje em dia é financiada por dinheiros públicos, o que significa que todos temos uma responsabilidade em saber como é que esse dinheiro está a ser gasto e com que objectivos. Assim, para que o público e os seus representantes políticos possam tomar medidas bem fundamentadas e eficazes na gestão do financiamento científico é crucial que estejam bem informados sobre a ciência que estão a financiar. Por outro lado, como sugerido nas questões de cima, uma maior cultura científica traduzir-se-ia numa procura activa pela verdade o que por sua vez teria um impacto significativo no combate à pseudociência, à fraude e à corrupção. Uma sociedade bem informada e com espírito crítico seria menos propensa a eleger um Trump, ou um Bolsonaro, ou a votar a favor de um Brexit.

*Na versão publicada na Plataforma do Barómetro Social, a entrevista foi encurtada por questões de espaço.

Marinho Lopes

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