Somos animais “racionais”? – parte V

Nesta quinta e última parte sobre vieses cognitivos vou-me focar na nossa intuição e egocentrismo.

O sentir que é verdade

O vizinho diz A, a televisão diz B, o tio diz C… Quem é que tem razão? Como é claro em todos os vieses cognitivos que já aqui falei (ver, por exemplo, parte I): somos preguiçosos. Analisar em detalhe a argumentação de cada facção dá trabalho… Até poderemos ser honestos e reconhecer que não temos competências e conhecimentos para de facto avaliar o raciocínio de cada um. Porém, a indecisão não é uma opção pois pode parecer ridícula. Não somos nenhum idiota que não consegue decidir quem tem razão, não é? Sendo assim, de forma consciente ou não, usamos vários “atalhos” para decidirmos quem vamos apoiar. Usamos, portanto, o gut feeling, isto é, a nossa intuição. Infelizmente, esta é condicionada por vários factores irracionais. Por exemplo, quando um argumento tem uma conclusão que nos parece plausível, o próprio argumento parece-nos mais plausível. Contudo, conclusões plausíveis ou até mesmo correctas podem ser alcançadas usando argumentos absurdos. Eis um exemplo com um silogismo:

Os humanos são mamíferos.
O Ronaldo é um mamífero.
Logo, o Ronaldo é um humano.

A conclusão é verdadeira, mas o argumento é falso (trata-se de uma falácia formal). O meu gato também é um mamífero, mas isso não faz dele humano.

Sofremos também do viés da simplicidade: é mais provável acreditarmos num argumento simples, do que num complexo. Porquê? Porque somos preguiçosos, claro. Compreender o argumento complexo pode ser difícil. Pode até parecer assustador. A alternativa é aceitar de forma implícita que não compreendemos e, por não compreendermos, poderemos olhar o argumento com desconfiança – “se calhar estão a tentar enganar-nos”. No meio disto também surge o receio de parecer idiota perante os outros: por um lado não podemos defender o que não compreendemos, por outro não podemos reconhecê-lo porque estaríamos a admitir as nossas lacunas. Assim, somos conduzidos a defender e a acreditar naquilo que compreendemos. Este viés explica em parte o porquê de as teorias da conspiração serem tão apetecíveis… E também o porquê de a ciência ser tantas vezes desprezada.

Podemos ainda recordar o viés da confirmação: se um argumento suporta aquilo em que acreditamos, então teremos uma maior tendência a julgá-lo correcto. Aliás, o mesmo se aplica a evidências de carácter aleatório: se por acaso aparentam apoiar a nossa visão, então já não parecem meras coincidências.

Estás a pensar que isto não se aplica a ti?

Viés egocêntrico

O viés egocêntrico implícito na questão de cima tem um nome específico: bias blind spot, isto é, é o viés da nossa cegueira no que toca a avaliar os nossos próprios vieses cognitivos. É muito mais fácil reconhecer vieses, falhas e defeitos nos outros. Quando olhamos para o passado para nos auto-avaliarmos, também temos uma tendência a recordar melhor aquilo que nos favorece. “Não sou perfeito, mas não me recordo de ter nenhum defeito.”

O viés egocêntrico manifesta-se de muitas outras formas. O nosso ego ilude-nos de tal forma que julgamos ter mais controlo e/ou responsabilidade sobre aquilo que nos acontece do que de facto temos. Por exemplo, pensamos que controlamos melhor os nossos desejos físicos do que os outros. “Comi o chocolate mas foi porque eu quis!”

Temos também uma tendência a confiar em demasia na nossa intuição. Por exemplo, estudos na área da Psicologia mostraram que nós somos capazes de responder a certo tipo de questões com um nível de exactidão inferior a 50% e ainda assim julgar que a nossa performance foi quase 100%.

O nosso egocentrismo não se fica por aqui. Não só sobrevalorizamos o valor das nossas opiniões, como julgamos que elas são mais originais que a média e também que suscitam um maior nível de concordância por parte dos outros. Além disso, estamos também convencidos que compreendemos melhor os outros do que os outros nos compreendem a nós. Em suma, a ilusão de superioridade é bastante comum. Por definição, há tantas pessoas melhores como piores que a mediana. Contudo, a maioria julga estar do lado dos melhores. Alguns até pensam ser muito melhores do que de facto são, como vimos com o efeito de Dunning-Kruger.

Como é que o nosso egocentrismo pode ser usado contra nós? Abra um jornal na secção de Astrologia e leia um texto qualquer. “Epá, isto faz mesmo sentido agora na minha vida… Ups, li no signo errado. Hmm… Sim, este também está certo!” Trata-se do efeito Forer ou efeito Barnum, é a tendência que temos de assumir que uma dada descrição (vaga) se coaduna com a nossa vida e/ou personalidade. Adivinhadores, bruxos e outros aldrabões usam este e outros dos nossos vieses para nos ludibriar.

Acrescento ainda uma outra vertente do viés egocêntrico: o assumir que o viés egocêntrico se manifesta mais nos outros do que em nós próprios!

“Bem-vindos aos narcisistas anónimos. Agora, antes de começarmos, falemos um pouco sobre mim.”

Recordo por uma última vez que todos os vieses retratados nestas cinco partes são, por definição, tendências. Não erramos sempre. Por outro lado, podemos ser mais ou menos afectados por vieses dependendo das circunstâncias. Não obstante, é importante tentarmos ter sempre presente esta nossa falibilidade racional. Lembremo-nos ainda que os vieses podem prejudicar não só a nós mesmos, como também os outros, por exemplo na forma de discriminação e estereótipos.

Marinho Lopes

3 thoughts on “Somos animais “racionais”? – parte V

  1. Pingback: Índice de Artigos | Sophia of Nature

  2. Olá. Primeiramente gostaria de agradecer pela dedicação em manter essa página com tantos artigos interessantes e didáticos. Sobre a parte, ” Assim, somos conduzidos a defender e a acreditar naquilo que compreendemos. Este viés explica em parte o porquê de as teorias da conspiração serem tão apetecíveis… E também o porquê de a ciência ser tantas vezes desprezada.” As vezes tendemos a simplificar alguns conceitos científicos para facilitar sua explicação, entretanto isso pode levar a falsas analogias. Gostaria de saber como você essa situação; o fato de uma grande maioria das pessoas optarem pelo caminho do argumento mais simples e como isso pode se tornar um problema para o ensino do conhecimento científico? Eu particularmente estou um pouco desanimado com o atual estado de propagação de teorias da conspiração e da falta de preocupação das pessoas em checar as informações. Acho que isso pode levar um atraso na evolução do conhecimento cientifico um vez que essa tendência pode ser passada para as próximas gerações. Obrigado.

    • Olá Samuel,

      Muito obrigado pelo seu comentário!

      Falei em parte dessas problemáticas nesta entrevista:

      Entrevista para o Barómetro Social

      É de facto um problema, mas não sei até que ponto é algo novo. De certa forma, a situação é muito melhor do que já foi: no passado apenas uma ínfima proporção da população estava informada. Hoje a maioria tem um conhecimento razoável, ainda que infelizmente haja muitos que estejam mal informados e que não saibam distinguir o “trigo do joio”. A solução estará na educação. Em particular, é preciso educar e treinar espírito crítico. A propagação das ‘fake news’ e o relevo das redes sociais é um fenómeno novo, pelo que é natural a sociedade ainda não estar devidamente preparada. Contudo, a próxima geração deverá estar, caso se saiba educar.

      As “boas notícias” é que as novas gerações não costumam ser assim tão influenciadas pelas anteriores quanto isso. Do que tenho lido, tenho obtido a impressão de que o papel da escola consegue em boa medida sobrepor-se à influência dos pais. Aliás, deve ser em parte por isso que se conseguiram mudanças tão drásticas na forma de pensar da sociedade ao longo do século XX. Se os filhos fossem quase “iguais” aos pais, não teríamos observado uma tão rápida evolução (ainda que possamos lamentar que não tenhamos já alcançado aquilo que conseguimos vislumbrar como possível e desejável).

      A evolução da ciência pode ter muitos obstáculos, mas podemos acreditar com optimismo que a evolução é inevitável porque tem a verdade do seu lado. Por exemplo, nesta pandemia talvez possamos verificar um diminuir da força dos movimentos anti-vacina, porque as evidências são demasiado óbvias para serem rejeitadas por muito tempo. Talvez o meu aparente optimismo não seja completamente justificável, mas parece-me conveniente ter algum. Dito isto, é preciso continuar a lutar… Educar é excelente, mas regulamentar também será necessário. (Com os devidos cuidados, visto que um “ministério da verdade” pode ser o princípio de uma distopia.)

      Cumprimentos,
      Marinho

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