Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte IV

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O campo de concentração de Auschwitz-Birkenau simboliza hoje o holocausto que decorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que o genocídio só neste campo de concentração tenha ultrapassado mais de um milhão de vidas. Entre elas, muitos milhares de pessoas foram usados para efectuar experiências. A lista de experiências é longa, pelo que refiro apenas algumas. Josef Mengele, também conhecido por Anjo da Morte ou Anjo Branco, foi um médico da SS que praticou experiências com gémeos (um era usado na experiência, o outro servia de “controlo” para comparação). Por exemplo, algumas das experiências consistiram em amputações (desnecessárias), ou infecção de um gémeo com uma doença, seguido de transfusão sanguínea para o outro gémeo (para estudar a transmissão da doença). A maioria das cobaias morria no decorrer da experiência, ou era assassinada depois (para que os cadáveres fossem dissecados). Outras experiências executadas por outros médicos ou cientistas alemães (quer em Auschwitz, quer noutros campos de concentração) incluíram transplantes de nervos, ossos e músculos; estudos sobre hipotermia (isto é, matar com frio de forma a compreender em que condições é que a hipotermia pode matar); estudos de infecção com doenças e respectivos tratamentos (malária, por exemplo); experiências com armas químicas (como o gás mostarda), bem como outras armas e venenos; experiências de esterilização (para optimizar a esterilização em massa); etc. etc. Poucos foram os que sobreviveram e desses a maioria ficou com lesões para o resto da vida.

Como foram possíveis estas (e muitas outras) atrocidades? Será que todos os alemães envolvidos eram “monstros”? Muitos acreditavam piamente na ideologia nazi, mas será que isso chega para justificar o comportamento da grande maioria deles?

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte III

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Já terão de certo ouvido a alegação de que os video jogos, bem como a violência em geral que é transmitida em inúmeros programas televisivos pode ter um impacto negativo no desenvolvimento das crianças. Em particular, poderá torná-las mais propensas a comportamentos violentos. Será que esta alegação tem alguma base científica? De que forma é que a poderíamos testar?

Depois da história de Mary Rafferty e da Experiência com o Pequeno Albert, vou-vos agora falar das famosas experiências de Albert Bandura com crianças e o boneco Bobo.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte II

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Na primeira parte falei-vos da história de Mary Rafferty, uma cobaia humana que sofreu choques eléctricos no seu cérebro de forma a que Roberts Bartholow descobri-se a função de várias regiões cerebrais. Da Neurologia passo para a Psicologia para vos falar de uma das experiências mais famosas na História desta: a Experiência com o Pequeno Albert (do inglês, “Little Albert experiment”).

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte I

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A procura por novo conhecimento pode, por vezes, conduzir a questões de carácter ético. Os fins podem nem sempre justificar os meios. Porém, há questões éticas que são subjectivas e há também quem não se queira preocupar com elas. Além disso, os valores éticos têm variado ao longo do tempo e mesmo hoje em dia são diferentes em civilizações diferentes. Por exemplo, nas sociedades ocidentais é típico a medicina dar prioridade à opinião do indivíduo em detrimento do seu bem-estar. Trata-se do princípio bioético da autonomia. Tal princípio é relativamente moderno e não é tido em conta de igual forma em todas as sociedades actuais.

Assim, sem surpresa, quando olhamos para o passado da ciência encontramos múltiplas histórias de terror. A ética nem sempre terá sido desprezada, pois em certos casos ou os princípios éticos ainda não estavam estabelecidos, ou a ignorância terá cegado os cientistas em causa das possíveis consequências das suas experiências. O que é certo é que a ética (ou a componente legal que a acompanha) acabou por evoluir como reacção a algumas das histórias que se seguem. Nesta primeira parte vou-me focar na história de Mary Rafferty.

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O que nos vai na cabeça? – parte IV

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Nesta quarta e última parte vou abordar uma outra técnica para ler “o que nos vai na cabeça”: o PET scan, isto é, Positron Emission Tomography (tomografia por emissão de positrões). Recordo que nas partes I, II e III deste artigo falei de electroencefalografia (EEG), magnetoencefalografia (MEG) e imagem por ressonância magnética funcional (fMRI).

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O que nos vai na cabeça? – parte III

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Já vos falei de electroencefalogramas e magnetoencefalogramas para medir sinais eléctricos e magnéticos produzidos pelo cérebro (ver primeira e segunda parte deste artigo). Que mais podemos medir? Nesta terceira parte vou abordar a técnica que é quiçá a mais famosa actualmente para medir actividade cerebral: a imagem por ressonância magnética funcional, ou fMRI do inglês functional Magnetic Resonance Imaging. Mas antes dela, terei que referir o CT scan e o MRI.

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O que nos vai na cabeça? – parte II

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Na primeira parte falei-vos da tecnologia telepática de Hans Berger, o electroencefalograma.  O que é que o electroencefalograma mede? De que forma é que mede? Ainda é usado? O que mudou? E para lá do electroencefalograma, o que temos?

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