Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte VIII

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Em 1947 estabeleceu-se o Código de Nuremberga, aquele que é considerado um dos primeiros documentos a definir regulamentação ética para experimentação em humanos. O objectivo era claro: impedir que “experiências” como aquelas que foram conduzidas pelos nazis não pudessem ser repetidas. Recordo que entre as várias atrocidades cometidas pelos nazis nos campos de concentração, uma delas foi usar judeus como cobaias para estudar a eficiência mortífera de armas químicas, venenos e muito mais. O Código de Nuremberga defende a necessidade de obter consentimento informado da cobaia, bem como a necessidade de haver um objectivo científico claro que possa contribuir para um futuro melhor. A experiência deve também ser insubstituível, isto é, só é justificado usar uma cobaia humana se não houver outra forma de obter o conhecimento que se pretende alcançar. Mais importante que tudo, não se pode sacrificar os interesses da cobaia em favor dos interesses da sociedade ou da ciência.

Se por um lado é claro que o Código de Nuremberga tem sido ignorado de forma recorrente, em particular de forma gritante no Projecto MKUltra, por outro é importante reconhecer que estas e outras considerações éticas não são suficientes para regulamentar a ciência actual. Por isso, nesta última parte deste artigo vou abordar os problemas éticos que a ciência actual e de um futuro (quiçá) próximo começam a criar. Tal como nos outras partes, irei focar-me nas Neurociências.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte VII

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Esta será a penúltima parte deste artigo que é já o mais extenso neste blogue. Vou aqui apresentar duas últimas experiências onde a ética foi negligenciada, para então na próxima parte olhar para os desafios éticos do presente e do futuro. As duas experiências que vamos conhecer são a do Projecto MKUltra e a Experiência com a Medicação para Esquizofrenia da UCLA.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte V

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“Fizemos tudo o que os adultos fariam. O que é que falhou?” [1]

Esta frase de William Golding no seu famoso “O Deus das Moscas” (1954) ilustra o pessimismo do autor sobre a natureza humana. Sem restrições sociais, quais seriam os instintos naturais que iriam imperar? Não somos uma tábula rasa [2], pelo que devemos ter uma tendência natural para cooperar ou competir, para partilhar ou roubar, para sermos altruístas ou sádicos, para amar ou odiar. É curioso observar que muitos desculpam comportamentos egoístas, ou até tirânicos em indivíduos que possuem uma posição de poder. A racionalização implícita é que as circunstâncias justificam o comportamento. Será que justificam?

Philip Zimbardo propôs-se a responder a uma questão semelhante no começo da década de 1970: será que a então conhecida brutalidade dos guardas prisionais americanos poderia ser atribuída a uma personalidade particularmente sádica dos guardas, ou será que as circunstâncias do trabalho numa prisão poderiam em parte ditar o comportamento?

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte IV

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O campo de concentração de Auschwitz-Birkenau simboliza hoje o holocausto que decorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que o genocídio só neste campo de concentração tenha ultrapassado mais de um milhão de vidas. Entre elas, muitos milhares de pessoas foram usados para efectuar experiências. A lista de experiências é longa, pelo que refiro apenas algumas. Josef Mengele, também conhecido por Anjo da Morte ou Anjo Branco, foi um médico da SS que praticou experiências com gémeos (um era usado na experiência, o outro servia de “controlo” para comparação). Por exemplo, algumas das experiências consistiram em amputações (desnecessárias), ou infecção de um gémeo com uma doença, seguido de transfusão sanguínea para o outro gémeo (para estudar a transmissão da doença). A maioria das cobaias morria no decorrer da experiência, ou era assassinada depois (para que os cadáveres fossem dissecados). Outras experiências executadas por outros médicos ou cientistas alemães (quer em Auschwitz, quer noutros campos de concentração) incluíram transplantes de nervos, ossos e músculos; estudos sobre hipotermia (isto é, matar com frio de forma a compreender em que condições é que a hipotermia pode matar); estudos de infecção com doenças e respectivos tratamentos (malária, por exemplo); experiências com armas químicas (como o gás mostarda), bem como outras armas e venenos; experiências de esterilização (para optimizar a esterilização em massa); etc. etc. Poucos foram os que sobreviveram e desses a maioria ficou com lesões para o resto da vida.

Como foram possíveis estas (e muitas outras) atrocidades? Será que todos os alemães envolvidos eram “monstros”? Muitos acreditavam piamente na ideologia nazi, mas será que isso chega para justificar o comportamento da grande maioria deles?

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte III

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Já terão de certo ouvido a alegação de que os video jogos, bem como a violência em geral que é transmitida em inúmeros programas televisivos pode ter um impacto negativo no desenvolvimento das crianças. Em particular, poderá torná-las mais propensas a comportamentos violentos. Será que esta alegação tem alguma base científica? De que forma é que a poderíamos testar?

Depois da história de Mary Rafferty e da Experiência com o Pequeno Albert, vou-vos agora falar das famosas experiências de Albert Bandura com crianças e o boneco Bobo.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte II

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Na primeira parte falei-vos da história de Mary Rafferty, uma cobaia humana que sofreu choques eléctricos no seu cérebro de forma a que Roberts Bartholow descobri-se a função de várias regiões cerebrais. Da Neurologia passo para a Psicologia para vos falar de uma das experiências mais famosas na História desta: a Experiência com o Pequeno Albert (do inglês, “Little Albert experiment”).

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte I

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A procura por novo conhecimento pode, por vezes, conduzir a questões de carácter ético. Os fins podem nem sempre justificar os meios. Porém, há questões éticas que são subjectivas e há também quem não se queira preocupar com elas. Além disso, os valores éticos têm variado ao longo do tempo e mesmo hoje em dia são diferentes em civilizações diferentes. Por exemplo, nas sociedades ocidentais é típico a medicina dar prioridade à opinião do indivíduo em detrimento do seu bem-estar. Trata-se do princípio bioético da autonomia. Tal princípio é relativamente moderno e não é tido em conta de igual forma em todas as sociedades actuais.

Assim, sem surpresa, quando olhamos para o passado da ciência encontramos múltiplas histórias de terror. A ética nem sempre terá sido desprezada, pois em certos casos ou os princípios éticos ainda não estavam estabelecidos, ou a ignorância terá cegado os cientistas em causa das possíveis consequências das suas experiências. O que é certo é que a ética (ou a componente legal que a acompanha) acabou por evoluir como reacção a algumas das histórias que se seguem. Nesta primeira parte vou-me focar na história de Mary Rafferty.

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O que nos vai na cabeça? – parte IV

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Nesta quarta e última parte vou abordar uma outra técnica para ler “o que nos vai na cabeça”: o PET scan, isto é, Positron Emission Tomography (tomografia por emissão de positrões). Recordo que nas partes I, II e III deste artigo falei de electroencefalografia (EEG), magnetoencefalografia (MEG) e imagem por ressonância magnética funcional (fMRI).

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O que nos vai na cabeça? – parte III

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Já vos falei de electroencefalogramas e magnetoencefalogramas para medir sinais eléctricos e magnéticos produzidos pelo cérebro (ver primeira e segunda parte deste artigo). Que mais podemos medir? Nesta terceira parte vou abordar a técnica que é quiçá a mais famosa actualmente para medir actividade cerebral: a imagem por ressonância magnética funcional, ou fMRI do inglês functional Magnetic Resonance Imaging. Mas antes dela, terei que referir o CT scan e o MRI.

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O que nos vai na cabeça? – parte II

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Na primeira parte falei-vos da tecnologia telepática de Hans Berger, o electroencefalograma.  O que é que o electroencefalograma mede? De que forma é que mede? Ainda é usado? O que mudou? E para lá do electroencefalograma, o que temos?

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