Ciência, Ética e Religião – parte II

ethics

Dando seguimento à primeira parte, irei continuar aqui o comentário ao texto de Hierotheos Vlachos, sobre a visão da Igreja Ortodoxa em questões de bioética [1].  Como disse na primeira parte, creio que o artigo tem muitos mal-entendidos que não dizem respeito apenas à Igreja Ortodoxa, pelo que creio justificar-se este comentário (que terá um cunho pessoal e opinativo, embora tente ser em geral imparcial). Irei citar a azul fragmentos do texto supramencionado de forma a comentá-los um a um.

“Não sei se Deus irá permitir a produção de clones humanos num laboratório, seres com corpo humano, mas sem alma. Tal não existe de momento, porque a vida de uma pessoa está ligada de forma misteriosa à sua alma.”

O curioso nesta asserção é o facto de não haver forma de verificar se existe “alma”. A alma não é algo que permita ser observado ou de alguma forma examinado, pelo que é um pouco ridículo ter-se o receio de que possa surgir um clone sem alma. Como é que saberíamos que não tinha alma? Que diferença faria? Se a alma de facto existe, como ter a certeza que toda as pessoas têm uma? Porque é que um clone haveria de ser especial (não ter alma)? Como discuti noutro artigo, para já não há razões científicas para acreditar que de facto existe alma.

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Ciência, Ética e Religião – parte I

science vs religion

Neste artigo vou discutir um texto que li recentemente de um bispo grego, Hierotheos Vlachos, sobre a visão da Igreja Ortodoxa em questões de bioética [1]. No meu entender, o artigo tem muitos mal-entendidos que não dizem respeito apenas à Igreja Ortodoxa, pelo que resolvi fazer um apanhado deles e comentá-los aqui. Este será um artigo de carácter opinativo sobre filosofia da ciência e a sua relação com a ética e a religião. Irei citar a azul fragmentos do texto supramencionado de forma a comentá-los um a um.

 

“Não existe qualquer conflito entre a teologia e a ciência, pois elas têm propósitos e papéis diferentes.” 

Esta afirmação é repetida várias vezes ao longo do artigo. Também já a encontrei muitas vezes noutros círculos religiosos (nomeadamente no católico, protestante e islâmico). A razão para o declarar é evidente: a ciência tem actualmente uma “autoridade” inquestionável dada a tecnologia que tem oferecido à humanidade. Por isso, qualquer pessoa com um pouco de bom senso não irá querer entrar em conflito com a ciência. Contudo, o conflito entre a teologia e a ciência existe. Se não existisse, o artigo em questão [1] não existiria. Os “propósitos e papéis” são em geral diferentes, mas existe sobreposição: tudo aquilo que a teologia “decreta” sobre o nosso universo é passível de ser escrutinado pela ciência, a qual não irá necessariamente concordar com os dogmas teológicos.

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