Teorias da conspiração – parte I

Ninguém gosta de se enganar nem de ser enganado. Ninguém gosta de ser otário. Ninguém gosta de poder ser considerado idiota ou ignorante. Estas são emoções fortes que podem facilmente condicionar os nossos julgamentos. Parte do charme das teorias da conspiração reside na promessa de que ao acreditarmos nelas estamos a elevar-nos acima do “rebanho” que acredita na explicação oficial. A “conspiração” está na suposição de que a explicação oficial serve para nos manipular. Um conspiracionista é, portanto, alguém céptico, mas que, em muitos casos, se esquece de aplicar o cepticismo à sua própria crença.

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As suposições da humanidade

Como medir a distância da Terra ao Sol? Como é que se forma um arco-íris? Como estimar a probabilidade de ganhar o Euromilhões? Como é que funciona o cérebro humano? O que têm estas questões em comum além do facto de já terem sido abordadas neste blogue?

Todas elas são questões científicas inteligíveis. Fazem sentido. O que é que nos garante que de facto uma dada questão “faz sentido”? Nada! A procura por conhecimento científico assenta em várias suposições implícitas. Neste artigo vou reflectir sobre estas suposições.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte I

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A procura por novo conhecimento pode, por vezes, conduzir a questões de carácter ético. Os fins podem nem sempre justificar os meios. Porém, há questões éticas que são subjectivas e há também quem não se queira preocupar com elas. Além disso, os valores éticos têm variado ao longo do tempo e mesmo hoje em dia são diferentes em civilizações diferentes. Por exemplo, nas sociedades ocidentais é típico a medicina dar prioridade à opinião do indivíduo em detrimento do seu bem-estar. Trata-se do princípio bioético da autonomia. Tal princípio é relativamente moderno e não é tido em conta de igual forma em todas as sociedades actuais.

Assim, sem surpresa, quando olhamos para o passado da ciência encontramos múltiplas histórias de terror. A ética nem sempre terá sido desprezada, pois em certos casos ou os princípios éticos ainda não estavam estabelecidos, ou a ignorância terá cegado os cientistas em causa das possíveis consequências das suas experiências. O que é certo é que a ética (ou a componente legal que a acompanha) acabou por evoluir como reacção a algumas das histórias que se seguem. Nesta primeira parte vou-me focar na história de Mary Rafferty.

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Quando até os especialistas dizem disparates…

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Michio Kaku apareceu no mês passado nas notícias a defender que neste momento as evidências indicam que os OVNIs (ou UFOs em inglês) existem e deu a entender que a sua origem deve ser extra-terrestre:

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O que está mal com o sistema científico?

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A ciência é o conhecimento que temos sobre nós e tudo o que nos rodeia. Não sabemos tudo e por isso existem cientistas: pessoas que estudam as questões em aberto na ciência. Como toda a gente, os cientistas não vivem do ar e, por isso, existe todo um sistema que permite financiar os cientistas e a ciência. É deste “sistema científico” que vou falar neste artigo; um sistema que, paradoxalmente, promove “má ciência”, isto é, trabalho de fraca qualidade no explorar das fronteiras do conhecimento.

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Ciência, Ética e Religião – parte II

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Dando seguimento à primeira parte, irei continuar aqui o comentário ao texto de Hierotheos Vlachos, sobre a visão da Igreja Ortodoxa em questões de bioética [1].  Como disse na primeira parte, creio que o artigo tem muitos mal-entendidos que não dizem respeito apenas à Igreja Ortodoxa, pelo que creio justificar-se este comentário (que terá um cunho pessoal e opinativo, embora tente ser em geral imparcial). Irei citar a azul fragmentos do texto supramencionado de forma a comentá-los um a um.

“Não sei se Deus irá permitir a produção de clones humanos num laboratório, seres com corpo humano, mas sem alma. Tal não existe de momento, porque a vida de uma pessoa está ligada de forma misteriosa à sua alma.”

O curioso nesta asserção é o facto de não haver forma de verificar se existe “alma”. A alma não é algo que permita ser observado ou de alguma forma examinado, pelo que é um pouco ridículo ter-se o receio de que possa surgir um clone sem alma. Como é que saberíamos que não tinha alma? Que diferença faria? Se a alma de facto existe, como ter a certeza que toda as pessoas têm uma? Porque é que um clone haveria de ser especial (não ter alma)? Como discuti noutro artigo, para já não há razões científicas para acreditar que de facto existe alma.

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Ciência, Ética e Religião – parte I

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Neste artigo vou discutir um texto que li recentemente de um bispo grego, Hierotheos Vlachos, sobre a visão da Igreja Ortodoxa em questões de bioética [1]. No meu entender, o artigo tem muitos mal-entendidos que não dizem respeito apenas à Igreja Ortodoxa, pelo que resolvi fazer um apanhado deles e comentá-los aqui. Este será um artigo de carácter opinativo sobre filosofia da ciência e a sua relação com a ética e a religião. Irei citar a azul fragmentos do texto supramencionado de forma a comentá-los um a um.

 

“Não existe qualquer conflito entre a teologia e a ciência, pois elas têm propósitos e papéis diferentes.” 

Esta afirmação é repetida várias vezes ao longo do artigo. Também já a encontrei muitas vezes noutros círculos religiosos (nomeadamente no católico, protestante e islâmico). A razão para o declarar é evidente: a ciência tem actualmente uma “autoridade” inquestionável dada a tecnologia que tem oferecido à humanidade. Por isso, qualquer pessoa com um pouco de bom senso não irá querer entrar em conflito com a ciência. Contudo, o conflito entre a teologia e a ciência existe. Se não existisse, o artigo em questão [1] não existiria. Os “propósitos e papéis” são em geral diferentes, mas existe sobreposição: tudo aquilo que a teologia “decreta” sobre o nosso universo é passível de ser escrutinado pela ciência, a qual não irá necessariamente concordar com os dogmas teológicos.

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A ditadura da verdade

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“You are not entitled to your opinion. You are entitled to your informed opinion. No one is entitled to be ignorant.” Harlan Ellison

Traduzindo a frase de Harlan Ellison: “Tu não tens direito à tua opinião. Tu tens direito à tua opinião informada. Ninguém tem direito a ser ignorante.”

A democracia, para se defender a ela própria, necessita de estabelecer limites às liberdades que oferece. Em particular, a liberdade de expressão tem que ser regulamentada de alguma forma.

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A Falsa Ciência – Parte II

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Na primeira parte falei-vos dos problemas do jornalismo científico, da forma como se deve encarar a vanguarda científica, e de como o “sistema científico” actual parece promover um certo descuidado por parte dos cientistas. Nesta segunda parte irei focar-me com maior detalhe nessa negligência científica. Creio que o assunto deva ser do interesse de todos, cientistas e leigos, porque o tal “sistema” funciona na verdade com a participação de todos. Espero, em particular, que este artigo permita ao leitor aguçar o seu olhar crítico em relação às notícias que lê, sabendo ser céptico quando o deve ser.

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Ciência versus Religião

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Já aqui falei sobre ciência e religião (ver os Mal-entendidos sobre Ciência e Religião), mas ficou muito por dizer. Irei aqui continuar essa divagação. Assim, este artigo terá também um cunho bastante pessoal. Mais uma vez convido o leitor a comentar, principalmente se encontrar incoerências ou algo com que não possa concordar. (Neste texto, as religiões em foco serão principalmente o cristianismo, judaísmo e islamismo.)

A curiosidade é uma característica intrínseca ao ser humano que se manifesta nas questões em que pensamos. As questões são em geral sempre as mesmas, o que difere são as respostas. Uma questão sem resposta representa algo que desconhecemos, que não controlamos e que por isso tememos. Torna-se então necessário inventar uma resposta para que nos possamos iludir que temos controlo sobre aquilo que receávamos. Este é o papel da religião; ou melhor, das religiões, porque é sempre possível inventar várias respostas diferentes. Em contraste, se apenas aceitarmos como verdade aquilo que podemos provar e verificar com base na lógica e na natureza, descobrimos a ciência (que é necessariamente única).

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