Memória – Parte I

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A faculdade mental mais facilmente reconhecível é a memória, a qual tem um papel primordial em todas as outras. Se por um lado aprender é o processo pelo qual adquirimos conhecimento do mundo, a memória é o que permite armazenar essa informação. Para tal, a informação recebida através dos nossos sentidos é de algum modo codificada numa “linguagem” que o cérebro “compreende”, “arquivada”, para mais tarde poder ser usada.

Mas onde exactamente no cérebro se encontra a memória? Como está ela organizada? Para responder a estas e a outras questões, Wilder Penfield na década de 1940 criou um tipo de experiência que lhe permitiu mapear o cérebro humano, usando o facto de o cérebro em si não possuir “sensores” de dor (nociceptores). Assim, é possível fazer uma cirurgia cerebral usando apenas anestesia local, estando o paciente completamente acordado, consciente, e capaz de descrever o que lhe está a acontecer (como acontece no filme do Hannibal, The Silence of the Lambs). Tendo em conta que os neurónios (células que compõe o cérebro) comunicam entre si através de impulsos eléctricos (ver artigo O Cérebro), Penfield supôs que abrindo a cabeça dos seus pacientes e estimulando electricamente diferentes partes do cérebro seria capaz de determinar que zonas cerebrais eram responsáveis pelas funções motoras, sensoriais e linguísticas.


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Wilder Penfield (1891-1976), neurocirurgião canadiano. Tentou descobrir se havia alguma evidência científica que suportasse a hipótese da existência de alma.

Em meados da década de 50, obteve-se a primeira grande evidência de que a memória teria que estar relacionada/ localizada nos lobos temporais (ver figura abaixo). A descoberta resultou da remoção bilateral [1] do hipocampo e regiões circundantes como tratamento experimental para a epilepsia [2].

([1] O cérebro é constituído por dois hemisférios, esquerdo e direito, semelhantes entre si. Muitas estruturas cerebrais encontram-se em ambos os hemisférios, sendo aparentemente uma o espelho da outra. Assim, a remoção bilateral significa que a estrutura foi removida de ambos os hemisférios.

[2] A epilepsia é uma desordem neurológica que consiste na descarga eléctrica anormal de neurónios, o que resulta normalmente para o paciente em convulsões incontroláveis.)

 lobosOrganização do cérebro por lobos. O cérebro tem a frente virada para a esquerda, o que significa que está representado o hemisfério esquerdo. O direito é o simétrico. A zona cinzenta abaixo do lobo occipital e temporal é o cerebelo, que depois se liga à medula espinal. 

Um caso ficou particularmente conhecido, o caso do paciente H. M. (só se ficou a conhecer o seu nome quando morreu, Henry Molaison) que foi estudado por Brenda Milner. Quando H. M. tinha 7 anos sofreu um acidente de bicicleta, o que se pensa ter sido a causa para sofrer de convulsões sistemáticas. Aos 27 anos foi submetido à cirurgia supracitada, pois as descargas eléctricas anormais aconteciam nestas zonas do cérebro.

As convulsões quase desapareceram, mas em contrapartida Henry ficou com um défice de memória devastador. Surpreendentemente (para a altura), o défice era bastante específico. A memória de H. M. em intervalos de segundos a alguns minutos era semelhante a de uma pessoa normal; conseguia lembrar-se de eventos que tinham ocorrido muito antes da cirurgia; mantinha um bom controlo sobre a linguagem, com um vocabulário variado; e o seu QI não se tinha alterado. Porém, verificou-se uma amnésia retrógrada que “apagava” a memória dos anos imediatamente anteriores à operação. Pior ainda, Henry era incapaz de manter uma memória por mais de alguns minutos. (Na verdade, e como se irá ver mais adiante, a nossa memória pode ser dividida em memória de longo prazo e curto prazo. Assim, o que H. M. não tinha era a faculdade de transferir memórias de curto prazo para longo prazo.)

07memo-popupHenry Molaison (1926-2008), mais conhecido pelas iniciais H. M.. Como paciente, não foi ele que beneficiou do conhecimento da sua doutora, Milner, mas antes o contrário sucedeu: Milner pôde aprender a partir do insucesso que foi a cirurgia. Infelizmente, H. M. nunca conseguiu compreender o seu valor incontornável para o desenvolvimento das neurociências. 

Apesar de Henry se encontrar com Milner todos os meses, sempre que a via reagia como se fosse a primeira vez que a encontrava. Para memorizar os “cantos à casa” demorou um ano.

O caso de H. M. não é único – todos os pacientes que se submeteram a igual operação passaram a sofrer de iguais sintomas. (É claro que as operações nunca são exactamente iguais, e pequenas diferenças podem conduzir a diferentes especificidades de deficiência; por outro lado, os cérebros humanos não são todos exactamente iguais, pois tanto a genética como a experiência vivida pelo seu “dono” moldam-nos um pouco.) Como se poderia esperar: a organização de funções no cérebro é igual para todos os humanos e existem também grandes semelhanças entre animais diferentes. É por isso que os ratos, gatos, macacos e outros animais são hoje usados como cobaias, pois através deles podemos obter mais conhecimentos sobre o nosso próprio cérebro (sem que se corra o risco de criar mais casos como o de H. M.).

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Depois de casos como o de H. M., o estudo em cobaias não humanas ganhou um novo impulso. 

Contudo, as faculdades de aprendizagem de H. M. não foram totalmente erradicadas (tal como em pacientes semelhantes). Curiosamente, a capacidade de aprender a executar habilidades motoras não tinha sido comprometida. Henry melhorava a cada vez que repetia uma dada tarefa motora, a um ritmo absolutamente normal, ainda que não se conseguisse lembrar das outras sessões de treino anteriores! Este tipo de memória não se limitava a tarefas motoras, mas tipicamente a todas aquelas que não requeressem uma atenção consciente para serem aprendidas (por exemplo, para aprender a saltar à corda não é necessário estar a pensar em cada treino exactamente no que se está a fazer – parece que o próprio corpo aprende a melhorar os movimentos sozinho). As tarefas em causa tendiam a depender mais dos reflexos do sujeito e não tanto no seu raciocínio, estando as mesmas envolvidas em hábitos motores e perceptuais.

Este facto levou os cientistas a supor que a memória se poderia dividir em duas formas fundamentais: uma mais para as habilidades e outra mais para o conhecimento. Naturalmente, antes destas evidências já os psicólogos tinham conseguido distinguir estas duas formas de memória pelo estudo empírico de outros casos. Os dois tipos de memória são os seguintes:

  • Memória implícita (também chamada de não declarativa, pois não é possível definir uma dada memória implícita em palavras), que é a memória que é recordada de forma inconsciente e está envolvida no treino dos reflexos motores e perceptuais;
  • Memória explícita (memória declarativa), que é a memória que é relembrada através de um esforço consciente e deliberado. Nesta memória inclui-se o nosso conhecimento sobre factos, pessoas, lugares, objectos e os seus significados.

Estudos mostram que a memória explícita tende a ser muito mais flexível que a memória implícita. Este facto é facilmente compreendido de forma empírica, pois na memória explícita somos capazes de criar associações e obter conhecimento novo por nós próprios, enquanto que na memória implícita tal é muito mais difícil. A diferença está certamente relacionada com o facto de numa termos um poder consciente sobre a informação armazenada e na outra não. Normalmente a memória implícita é “rígida” e  permanece “ligada” à experiência (ou treino) que conduziu à aprendizagem.

A memória explícita é ainda dividida em episódica e semântica, sendo a primeira responsável pela memorização de eventos e experiências pessoais, enquanto a segunda corresponde ao conhecimento adquirido através da escola, livros, etc., que corresponde ao nosso conhecimento objectivo.

O infeliz caso de H. M. foi muito proveitoso para as neurociências, no entanto, uma grande porção do lobo temporal tinha sido removido, pelo que era impossível estudar a função de cada parte deste. Obviamente, casos de pacientes com lesões em partes bem definidas do lobo temporal (ou de outras partes do cérebro) eram (e são) muito raros, pelo que, como referi em cima, o estudo passou para os animais (onde as questões éticas eram mais facilmente contornadas). Passou-se então a fazer estudos de lesões experimentais em macacos, para definir a contribuição de cada parte.

Assim, por exemplo, descobriu-se que lesões na amígdala (ver imagem abaixo) não se repercutiam na memória explícita, ainda que as memórias aqui presentes estivessem envolvidas em reacções emocionais (medo, por exemplo). Em contraste, o hipocampo era fundamental para a memória explícita. Semelhante papel tem o  córtex entorrinal, que é adjacente ao hipocampo, e é o principal ”servidor” de informação para o hipocampo (quero com isto dizer que a informação dentro do cérebro flui do córtex entorrinal para o hipocampo e “depois” em sentido contrário). Refira-se que a doença de Alzheimer começa por atacar (matando neurónios) exactamente no córtex entorrinal, daí os efeitos nefastos para a memória (explícita).

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A amígdala é a zona a vermelho na figura. Note-se que no hemisfério direito também se pode encontrar esta estrutura.

Por outro lado, descobriu-se também que o hipocampo no hemisfério esquerdo não faz o mesmo que o do hemisfério direito. O hipocampo do lado direito é “especialista” em memórias espaciais (determinante para nos conseguirmos orientar), enquanto o esquerdo está mais preocupado com as palavras, os objectos e as pessoas (memória verbal).

2008-05-08 Photographic memory

“Tenho uma memória fotográfica.” – “Demora pelo menos uma hora a formar-se (revelar).”

Concluo por aqui a parte I, pois penso que já tem uma boa quantidade de informação para digerirem. Na parte II irei continuar a expor a especificidade das consequências relacionadas com lesões bem localizadas (agnosias), para depois passar a expor noções mais gerais sobre como as memórias são criadas e recordadas. Existirá ainda uma parte III onde irei falar mais sobre a memória implícita e os estudos de Ivan Pavlov.

Bibliografia: Segui principalmente o livro “Principles of Neural Science” de Eric Kandel (2000), capítulo 62.

Marinho Lopes

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4 thoughts on “Memória – Parte I

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