Optimização de um método para prever o efeito de cirurgias em epilepsia

Em 2018 publiquei o meu segundo artigo sobre modelos matemáticos para prever o efeito de cirurgias em epilepsia. Tal como o primeiro artigo neste tema de que já aqui falei, o trabalho foi feito na Universidade de Exeter (Reino Unido), em colaboração com M.P. Richardson, E. Abela, C. Rummel, K. Schindler, M. Goodfellow e J.R. Terry. Este artigo foi intitulado Elevated Ictal Brain Network Ictogenicity Enables Prediction of Optimal Seizure Control e foi publicado na revista científica Frontiers in Neurology, uma revista com revisão por pares. O título pode ser traduzido para algo como: elevada propensão epiléptica de redes cerebrais durante crises epilépticas permite optimizar o prever do controlo de crises epilépticas. Ficou confuso? É natural!

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Filosofia – crash course (1)

O projecto Sophia faz hoje 15 anos! Para comemorar, decidi finalmente colocar em prática uma “promessa” que tinha feito no início de 2019: começar uma secção amadora de Filosofia. Creio que qualquer pessoa que tenha interesse em Ciência terá também interesse nos métodos lógicos do pensar, o que significa que também gostará de Filosofia, ainda que possa ainda não ter descoberto esta paixão. Sendo assim, creio que é justificado ter neste blogue uma secção onde tento pisar um pouco os campos da Filosofia usando os meus sapatos formatados pela Física, Matemática e Neurociências.

O plano inicial é o de comentar o Crash Course sobre Filosofia disponível no youtube, um “mini-curso” que gostei bastante de acompanhar aqui há uns anos atrás. Comecemos pelo primeiro episódio:

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Uma estratégia ideal para cirurgias para epilepsia: disrupção do rich-club?

Em 2017 publiquei o meu primeiro artigo devoto à epilepsia. Tratou-se do fruto do trabalho que realizara até então na Universidade de Exeter (Reino Unido), naquela que foi a minha primeira aventura pós-doutoral. O artigo,  An optimal strategy for epilepsy surgery: Disruption of the rich-club?, foi publicado em co-autoria com M.P. Richardson, E. Abela, C. Rummel, K. Schindler, M. Goodfellow e J.R. Terry na revista científica PLoS Computational Biology, uma revista com revisão por pares. Este trata-se por ventura do artigo mais importante que publiquei na minha vida académica, tanto mais não seja por ter o maior número de citações (>60). Comecemos mais uma vez por entender o título.

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Sincronização no modelo de Kuramoto com campos aleatórios em redes complexas

Como o título denuncia, vou-vos falar de mais um artigo que publiquei durante a minha vida académica. O trabalho em causa foi realizado nos últimos meses do meu doutoramento, assim como logo após o mesmo, antes de ir para Inglaterra em 2015. O artigo chama-se “Synchronization in the random-field Kuramoto model on complex networks“, o que se traduz no título acima.  Foi publicado em co-autoria com Elodie M. Lopes, Sooyeon YoonJosé F. F. Mendes e Alexander Goltsev na revista científica Physical Review E, uma revista com revisão por pares. Comecemos mais uma vez por deslindar o título!

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Erros e mal-entendidos

No final do ano é comum fazer-se uma análise do que se passou nos últimos 12 meses para se planear o que fazer no próximo ano. Uma forma útil de condensar a informação é reduzi-la a números. Por exemplo, como foi a natalidade em 2021? E a mortalidade? Acidentes na estrada? Criminalidade? Para que estes números tenham algum significado prático convém compará-los aos dos anos anteriores. No caso da criminalidade, desejar-se-á que esteja a diminuir. Infelizmente, a análise que se vê nos noticiários tende a parar neste ponto: se diminuiu é óptimo; se aumentou é dramático. O que aqui falta é o avaliar do quão óptima ou dramática é a diferença nos números. Ou se a diferença é tão reduzida que não faça sentido ficar-se satisfeito ou insatisfeito com as mudanças relativas. Pior ainda, em certos casos os dados são-nos apresentados sob a forma de gráficos adulterados, cuja interpretação precisa de ser bastante cuidadosa.

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Ressonância estocástica e estrutura modular para detecção de sinais em redes neuronais

Dando seguimento ao artigo do mês passado, no qual vos falei um pouco sobre a minha investigação durante o meu doutoramento, neste artigo vou abordar um outro artigo científico que publiquei nessa altura, 2014: “Noise-enhanced nonlinear response and the role of modular structure for signal detection in neuronal networks” que em português significa “Resposta não-linear amplificada por ruído e o papel de estrutura modular em detecção de sinal em redes neuronais”. O artigo foi publicado em co-autoria com KyoungEun LeeJosé F. F. Mendes e Alexander Goltsev na revista científica Physical Review E, uma revista com revisão por pares. Comecemos por compreender o título!

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Fenómenos críticos e transições de fase em redes neuronais

O título denuncia desde logo que este artigo será diferente do habitual neste blogue. Abro aqui uma nova secção dedicada à investigação que realizei e publiquei até hoje. O objectivo será clarificar o que um investigador/cientista faz (ou pode fazer) usando o meu exemplo para o ilustrar. É claro que não irei explicar em detalhe a componente técnica, mas irei tentar dar uma imagem genérica daquilo que fiz. Irei mencionar a motivação, esclarecer alguns conceitos e indicar parte da importância dos resultados. Ficará muito por dizer, pelo que os mais curiosos poderão interrogar-me usando os comentários.

Começo esta secção com o artigo entitulado “Critical phenomena and noise-induced phase transitions in neuronal networks” [1], que em português se traduz para “Fenómenos críticos e transições de fase induzidas por ruído em redes neuronais” que publiquei em 2014 em co-autoria com KyoungEun Lee, José F. F. Mendes e Alexander Goltsev. O artigo foi publicado na revista científica Physical Review E, uma revista com revisão por pares (o que significa que o artigo foi revisto, criticado e aceite por outros especialistas na área). O estudo em causa foi desenvolvido durante o meu doutoramento em Física na Universidade de Aveiro.

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Teorias da conspiração – parte III

A caça às bruxas decorreu entre os séculos XV e XVIII e estima-se que tenha feito entre 40 a 50 mil vítimas. Às acusadas era muitas vezes pedido que demonstrassem que não eram bruxas. Como é que elas poderiam demonstrar tal coisa?! Imagine-se o leitor a ser acusado de ser feiticeiro. Como é que prova a sua “inocência”? A falácia usada pela Inquisição era o apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam): o assumir que algo é verdade porque não foi provado como falso. Deste ponto de vista é possível assumir que todas as fantasias são verdadeiras, porque é impossível provar que são falsas. Conseguimos provar que os unicórnios não existem? Não. De acordo com o argumento da ignorância isto implicaria que eles existem. A lógica obriga-nos a reconhecer que o ónus da prova (onus probandi) está sempre do lado de quem diz que existe ou que é. Ou seja, eram os inquisidores que teriam que provar que a acusada era uma bruxa. Se eu afirmar que os unicórnios existem, sou eu que tenho que apresentar provas em favor da sua existência. O mesmo se aplica a todos os conspiracionistas: são eles que têm que apresentar provas a favor das teorias que defendem. Afirmar que a sua teoria não foi demonstrada como falsa não é um argumento válido a favor da teoria da conspiração.

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Teorias da conspiração – parte II

Na primeira parte falei-vos do que são as teorias da conspiração e de como as identificar. Nesta segunda parte vamos considerar alguns dos componentes que podem contribuir para o nascer destas teorias e que nos ajudam também a questioná-las e a refutá-las. Iremos conhecer a Teoria de Ramsey, a falácia do apostador, a falácia da conjunção e a falácia da falsa analogia.

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Teorias da conspiração – parte I

Ninguém gosta de se enganar nem de ser enganado. Ninguém gosta de ser otário. Ninguém gosta de poder ser considerado idiota ou ignorante. Estas são emoções fortes que podem facilmente condicionar os nossos julgamentos. Parte do charme das teorias da conspiração reside na promessa de que ao acreditarmos nelas estamos a elevar-nos acima do “rebanho” que acredita na explicação oficial. A “conspiração” está na suposição de que a explicação oficial serve para nos manipular. Um conspiracionista é, portanto, alguém céptico, mas que, em muitos casos, se esquece de aplicar o cepticismo à sua própria crença.

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