Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte VIII

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Em 1947 estabeleceu-se o Código de Nuremberga, aquele que é considerado um dos primeiros documentos a definir regulamentação ética para experimentação em humanos. O objectivo era claro: impedir que “experiências” como aquelas que foram conduzidas pelos nazis não pudessem ser repetidas. Recordo que entre as várias atrocidades cometidas pelos nazis nos campos de concentração, uma delas foi usar judeus como cobaias para estudar a eficiência mortífera de armas químicas, venenos e muito mais. O Código de Nuremberga defende a necessidade de obter consentimento informado da cobaia, bem como a necessidade de haver um objectivo científico claro que possa contribuir para um futuro melhor. A experiência deve também ser insubstituível, isto é, só é justificado usar uma cobaia humana se não houver outra forma de obter o conhecimento que se pretende alcançar. Mais importante que tudo, não se pode sacrificar os interesses da cobaia em favor dos interesses da sociedade ou da ciência.

Se por um lado é claro que o Código de Nuremberga tem sido ignorado de forma recorrente, em particular de forma gritante no Projecto MKUltra, por outro é importante reconhecer que estas e outras considerações éticas não são suficientes para regulamentar a ciência actual. Por isso, nesta última parte deste artigo vou abordar os problemas éticos que a ciência actual e de um futuro (quiçá) próximo começam a criar. Tal como nos outras partes, irei focar-me nas Neurociências.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte VII

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Esta será a penúltima parte deste artigo que é já o mais extenso neste blogue. Vou aqui apresentar duas últimas experiências onde a ética foi negligenciada, para então na próxima parte olhar para os desafios éticos do presente e do futuro. As duas experiências que vamos conhecer são a do Projecto MKUltra e a Experiência com a Medicação para Esquizofrenia da UCLA.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte VI

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Já aqui falei da história de Mary Rafferty, da Experiência com o Pequeno Albert, das experiências com o boneco Bobo, das atrocidades científicas dos nazis a par da Experiência de Milgram e ainda da Experiência da Prisão de Stanford. Nesta sexta parte vou descrever de forma algo breve três estudos: o Estudo Monstro, o Estudo sobre Sexo em Espaços Públicos e o Estudo da Sífilis (não tratada) em Tuskegee.

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Uma nova realidade – parte III

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Na primeira e segunda partes discuti a propagação do coronavírus, o significado dos números e a importância do distanciamento social. Nesta terceira parte vou dar uma breve opinião sobre o impacto do vírus na liberdade e no ambiente.

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Uma nova realidade – parte II

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Na primeira parte falei do crescimento exponencial e logístico, do ponto de inflexão, do “achatamento” da curva, e da importância do distanciamento social. Referi ainda de forma breve a previsão de quanto tempo isto vai demorar, bem como algumas considerações a ter quando olhamos para os números de infectados e mortos.

Começo esta segunda parte com a magnitude do problema. Infelizmente sei que estarei a escrever para um público que provavelmente já tem noção que estamos à beira de uma catástrofe de proporções bíblicas e que, por isso, não precisa de ser recordado disto. O público que não o sabe ou aceita é aquele que gostaria que lesse isto, visto serem aqueles que irão continuar a desprezar as medidas de distanciamento social e que, por isso, serão em parte responsáveis pelo agravamento da crise.

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Uma nova realidade – parte I

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Uma nova realidade exige uma nova perspectiva e um novo entendimento. As “regras” mudaram e por isso temos que nos adaptar. Não é meu costume comentar a actualidade neste blogue, mas o coronavírus merece a excepção. Neste artigo vou partilhar alguma informação que considero útil, bem como dar a minha opinião pessoal sobre vários temas que têm sido discutidos a par do vírus. (Espero estar a partilhar uma opinião suficientemente informada, mas se disser algum disparate, agradeço que me corrijam nos comentários.)

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte V

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“Fizemos tudo o que os adultos fariam. O que é que falhou?” [1]

Esta frase de William Golding no seu famoso “O Deus das Moscas” (1954) ilustra o pessimismo do autor sobre a natureza humana. Sem restrições sociais, quais seriam os instintos naturais que iriam imperar? Não somos uma tábula rasa [2], pelo que devemos ter uma tendência natural para cooperar ou competir, para partilhar ou roubar, para sermos altruístas ou sádicos, para amar ou odiar. É curioso observar que muitos desculpam comportamentos egoístas, ou até tirânicos em indivíduos que possuem uma posição de poder. A racionalização implícita é que as circunstâncias justificam o comportamento. Será que justificam?

Philip Zimbardo propôs-se a responder a uma questão semelhante no começo da década de 1970: será que a então conhecida brutalidade dos guardas prisionais americanos poderia ser atribuída a uma personalidade particularmente sádica dos guardas, ou será que as circunstâncias do trabalho numa prisão poderiam em parte ditar o comportamento?

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte IV

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O campo de concentração de Auschwitz-Birkenau simboliza hoje o holocausto que decorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que o genocídio só neste campo de concentração tenha ultrapassado mais de um milhão de vidas. Entre elas, muitos milhares de pessoas foram usados para efectuar experiências. A lista de experiências é longa, pelo que refiro apenas algumas. Josef Mengele, também conhecido por Anjo da Morte ou Anjo Branco, foi um médico da SS que praticou experiências com gémeos (um era usado na experiência, o outro servia de “controlo” para comparação). Por exemplo, algumas das experiências consistiram em amputações (desnecessárias), ou infecção de um gémeo com uma doença, seguido de transfusão sanguínea para o outro gémeo (para estudar a transmissão da doença). A maioria das cobaias morria no decorrer da experiência, ou era assassinada depois (para que os cadáveres fossem dissecados). Outras experiências executadas por outros médicos ou cientistas alemães (quer em Auschwitz, quer noutros campos de concentração) incluíram transplantes de nervos, ossos e músculos; estudos sobre hipotermia (isto é, matar com frio de forma a compreender em que condições é que a hipotermia pode matar); estudos de infecção com doenças e respectivos tratamentos (malária, por exemplo); experiências com armas químicas (como o gás mostarda), bem como outras armas e venenos; experiências de esterilização (para optimizar a esterilização em massa); etc. etc. Poucos foram os que sobreviveram e desses a maioria ficou com lesões para o resto da vida.

Como foram possíveis estas (e muitas outras) atrocidades? Será que todos os alemães envolvidos eram “monstros”? Muitos acreditavam piamente na ideologia nazi, mas será que isso chega para justificar o comportamento da grande maioria deles?

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte III

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Já terão de certo ouvido a alegação de que os video jogos, bem como a violência em geral que é transmitida em inúmeros programas televisivos pode ter um impacto negativo no desenvolvimento das crianças. Em particular, poderá torná-las mais propensas a comportamentos violentos. Será que esta alegação tem alguma base científica? De que forma é que a poderíamos testar?

Depois da história de Mary Rafferty e da Experiência com o Pequeno Albert, vou-vos agora falar das famosas experiências de Albert Bandura com crianças e o boneco Bobo.

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Quando a Ciência precedeu a Ética: histórias de experiências em humanos – parte II

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Na primeira parte falei-vos da história de Mary Rafferty, uma cobaia humana que sofreu choques eléctricos no seu cérebro de forma a que Roberts Bartholow descobri-se a função de várias regiões cerebrais. Da Neurologia passo para a Psicologia para vos falar de uma das experiências mais famosas na História desta: a Experiência com o Pequeno Albert (do inglês, “Little Albert experiment”).

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